20 Regras Para Escrever Histórias De Detetives

Por: Estrela de Rubi Link:  https://fanfiction.com.br/u/296241/ Olá pessoal! Este é o meu terceiro artigo aqui. Para mim é uma ...


Por: Estrela de Rubi


Olá pessoal! Este é o meu terceiro artigo aqui. Para mim é uma honra ajudar a enriquecer este blog, que tem vindo a ser um grande apoio a quem pretende iniciar-se na longa caminhada de escrever uma história. 

Mas deixemos de lamechices e passemos ao que interessa, né?

Este artigo é um complemento ao da NamelessChick, que elaborou um post sobre o tema “Como escrever um bom enredo policial”. Nas próximas linhas irei expor as vinte regras criadas por S. Van Dine, um escritor de grande renome na literatura policial norte-americana dos anos 20 e 30.   

Para S. Van Dine, um enredo policial é uma espécie de jogo intelectual. O autor deve jogar de uma forma justa com o leitor. Não pode recorrer a truques e a enganos e continuar a manter a sua honestidade como se estivesse a fazer trapaça num jogo de cartas. Deve ser mais sagaz que o leitor e manter o interesse dele através de uma ingenuidade pura. Ao escrever-se uma história policial há leis muito definidas – não escritas, talvez, mas nenhuma delas menos obrigatória; e todos os criadores de ficção policial que se auto-respeitem devem observá-las fielmente.

Eis, então, uma espécie de “Credo” de Van Dine, baseado na sua prática como escritor de histórias policiais:

1- “O leitor deve ter as mesmas oportunidades que o detetive em resolver o mistério.”
Todas as pistas devem ser claramente referidas e descritas.

2- “Não se deve jogar com nenhum truque ou engano voluntário, para além daqueles desempenhados legitimamente pelo próprio criminoso ou detetive.”

3- “Não deve haver interesses amorosos na história.”
Introduzir o amor é misturar uma experiência puramente intelectual com sentimentos irrelevantes. O assunto em mão é levar o criminoso à barra da justiça, não levar um casal de apaixonados ao altar do matrimônio.

4- “O próprio detetive, como um dos investigadores oficiais, nunca deve ser o culpado.”
Esse é um truque sujo, equivalente a trocar ouro por prata.

5- “O culpado deve ser descoberto pela dedução lógica”
Não deve ser pelo acaso, pela coincidência ou por uma confissão imotivada. Resolver um problema policial assim é o mesmo que enviar o leitor caçar gansos selvagens e dizer-lhe, depois de haver falhado, que durante todo o tempo tínhamos conosco o objeto da sua procura. Um autor assim não passa de um charlatão barato.

6- “O romance policial deve incluir um detetive; e um detetive só o é se detectar, se descobrir.”
A função de um detetive é reunir pistas que eventualmente conduzam à pessoa que realizou o trabalho sujo; e se o detetive não chegar às suas conclusões através de uma análise dessas pistas, resolveu tanto o problema como o estudante que chega a uma resposta através de uma cábula(cola).

7- “Numa história policial tem de haver um cadáver”
Para Van Dine, não há crime como o assassinato. Trezentas páginas é carga de mais para um crime que não seja homicídio. Afinal, deve-se recompensar a perda de tempo e de energia do leitor. Os leitores são essencialmente humanos e, portanto, um crime de homicídio desperta o seu sentido de vingança e de horror. Eles desejam levar o criminoso à justiça; e quando “o crime mais horrendo” tiver sido cometido, inicia-se a caça com todo o entusiasmo justiceiro de que é capaz o leitor mais cavalheiresco.

8- “O problema do crime deve ser resolvido por meios estritamente naturais.” Esses métodos de descobrir a verdade através de processos ocultos, como sessões espíritas, leitura da mente, quiromancia e outros, são tabu. O leitor deve estar em pé de igualdade com um detetive racional, mas se tem de competir com o mundo dos espíritos e percorrer à quarta dimensão da metafísica, é derrotado.

9- “Só pode haver um único detetive – isto é, um protagonista da dedução.” Arranjar três ou quatro, ou por vezes um grupo de detetives, para resolver um problema é somente dispersar o interesse e interromper o fio direto da lógica, como tirar vantagem injusta do leitor que, desde o início, entra em competição com o detetive numa batalha mental. Se houver mais do que um detetive, o leitor não sabe quem é o seu co-dedutor. É o mesmo que colocar o leitor a correr sozinho contra uma equipa de estafetas.

10- “O culpado deve ser uma pessoa que desempenhou um papel mais ou menos proeminente na história”
Isto é, uma pessoa com quem o leitor esteja familiarizado e por quem se interesse. Atribuir o crime, no capítulo final, a um estranho ou a uma pessoa que desempenhou um papel sem importância na história é confessar a incapacidade de competir com o leitor.

11- “Criados – como mordomos, empregados de mesa, copeiros, cozinheiros, etc… não devem ser escolhidos pelo autor como os culpados.”
Seria uma solução demasiado fácil. É insatisfatório e leva o leitor a sentir que esteve a perder o seu tempo. O culpado deve ser uma pessoa de bem – alguém de quem em geral não se suspeita; é que se o crime foi a obra sórdida de um demente, o autor estaria a perder o seu tempo a descrevê-la na forma de livro.

12- “Tem de haver um culpado, por muitos crimes que tenham sido cometidos.” O culpado pode, naturalmente, ter um ajudante ou cúmplice menor; mas o ônus completo deve cair sobre um único par de ombros: toda a indignação do leitor deve concentrar-se numa única figura negra.

13- “Sociedades secretas, camorras, máfias, etc… não têm lugar numa história policial.”
Aqui, o autor entra na ficção e no romance de serviço secreto. Um crime fascinante e verdadeiramente interessante fica irremediavelmente estragado com um tal culpado. Uma história policial deve dar ao criminoso uma boa oportunidade, mas é ir demasiado longe envolvê-lo numa sociedade secreta (com os seus ubíquos santuários de proteção). Nenhum criminoso de classe e estilo iria aceitar tais ajudas na sua luta com a polícia.

14- “O método do crime e os meios para o detectar devem ser racionais e científicos.”
Isto é, a pseudociência e instrumentos puramente imaginativos e especulativos não devem ser tolerados num romance policial. Por exemplo, a morte de uma vítima por um elemento recém-descoberto, um super-rádio, por exemplo, não é um problema legítimo, nem tão pouco deve intervir numa droga rara e desconhecida, que apenas existe na imaginação do autor. Um escritor de histórias policiais deve limitar-se, toxicologicamente falando, à farmacopéia. Uma vez mergulhado no mundo da fantasia, ultrapassou as fronteiras da ficção policial, aventurando-se por caminhos desconhecidos.

15- “A verdade do problema deve ser sempre evidente – desde que o leitor seja suficientemente sagaz para a detectar.”
Com isto, Van Dine quer dizer que se o leitor, depois de conhecer a explicação do crime, reler o livro, deve verificar que a solução afinal tinha estado patente desde o princípio – que todas as pistas realmente apontavam para esse culpado – e que, se tivesse sido tão esperto como o detetive, teria sido capaz de resolver sozinho o mistério sem chegar ao último capítulo. É evidente que o leitor esperto frequentemente resolve o problema. E uma das teorias básicas de ficção policial é que se uma história policial é estruturada como deve ser, é impossível ocultar a solução a todos os leitores. Haverá inevitavelmente um certo número deles tão perspicazes como o autor; e se o autor manifesta o adequado desportivismo e honestidade na sua declaração e projeção do crime e das suas pistas, estes leitores perspicazes, pela análise, eliminação de hipóteses e lógica, serão capazes de apontar o dedo ao culpado tão depressa quanto o detetive. E aqui jaz o gozo do jogo. Aqui temos uma explicação para o fato de leitores que repelem um romance popular vulgar serem capazes de devorar um romance policial.

16- “Uma história policial não deve conter grandes passagens descritivas”
Não deve demorar-se em questões secundárias, em análises subtilmente elaboradas da personalidade, nem deve ter preocupações de “atmosfera”. Tais questões não desempenham nenhum papel vital no relato do crime e das deduções. Suspendem a ação e apresentam questões irrelevantes para o alvo fundamental que é apresentar um problema, analisá-lo e conduzi-lo a uma conclusão bem sucedida. É claro que tem de haver descrição suficiente e um delinear das personagens a fim de dar verossimilhança ao romance; mas quando um autor de uma história policial atinge aquele ponto literário em que cria uma sensação dominante de realidade e atrai o interesse e a simpatia do leitor pelas personagens e pelo problema, então foi demasiado longe na técnica puramente “literária” relativamente ao que é legítimo e compatível face às necessidades de um documento de um problema criminoso. Uma história policial é um assunto sinistro e o leitor entra nela não pelo valor literário e estilo ou pelas lindas descrições e projeção das personalidades, mas pelo estímulo mental e pela atividade intelectual – tal como se vai assistir a um jogo de futebol ou como quando se resolve um problema de palavras cruzadas. A descrição da beleza do campo dificilmente aumenta o interesse pela luta entre duas equipes adversárias; e dissertações sobre etimologia e ortografia intercaladas nas definições de um problema de palavras cruzadas tendem apenas a irritar a pessoa interessada na correta resolução do problema.

17- “Um criminoso profissional nunca deve sofrer o ônus da culpa de um crime numa história policial.”
Os crimes cometidos por arrombadores e bandidos são do foro do Departamento da Polícia – não de autores e de brilhantes detetives amadores. Tais crimes pertencem ao trabalho rotineiro das Brigadas de Homicídios. Um crime realmente fascinante é aquele cometido por um pilar de uma igreja ou por uma solteirona conhecida pelas suas obras de caridade.

18- “Um crime numa história policial nunca deve transformar-se num acidente   ou num suicídio.”
Terminar uma odisséia de pesquisa intensa com um tal anticlímax é pregar uma partida imperdoável ao leitor. Se quem compra um livro exigisse a devolução do dinheiro com a alegação de que o crime foi uma farsa, qualquer tribunal com um mínimo de sentido de justiça decidiria em seu favor e repreenderia severamente o autor que assim teria enganado um leitor cheio de boas intenções.

19- “Os motivos de todos os crimes de uma história policial devem ser pessoais.”
Tramas internacionais e políticas bélicas pertencem a uma categoria diferente de ficção – as histórias de serviços secretos, por exemplo. Mas uma história de um crime deve refletir as experiências diárias do leitor e dar-lhe uma certa saída para os seus próprios desejos e emoções reprimidas.

20- Os próximos pontos são alguns dos instrumentos que nenhum autor policial, que se preze, utilizará nas suas histórias. Para Van Dine, as seguintes alíneas têm sido usadas com demasiada frequência e são conhecidas por todos os verdadeiros amantes da literatura do crime. Utilizá-las é confessar a incapacidade do autor e a sua falta de originalidade.
a) “Determinar a identidade do culpado pela comparação da “bituca” deixada na cena do crime com o cigarro recentemente fumado pelo suspeito.”
b) “A sessão espírita para assustar o culpado, levando-o a ceder.”
c) “Impressões digitais forjadas.”
d) “O álibi da pessoa parva.”
e) “O cão que não ladra e, portanto, revela o fato de o intruso ser familiar.”
f) “A descoberta final do crime num gêmeo ou num parente muito parecido com a pessoa suspeita mas inocente.”
g) “A seringa hipodérmica e o remédio em gotas”
h) “A entrada do criminoso numa sala trancada depois de, eventualmente, a polícia ter lá estado.”
i)“O teste da associação de palavras para a detecção do culpado.”
j) “A carta cifrada ou codificada que é eventualmente descoberta pelo investigador.”      

E aqui termino, desejando a todos os futuros romancistas policiais muita sorte para conseguir escrever uma história seguindo com rigor cada regra descrita por Van Dine.  ;)



BIBLIOGRAFIA:
S.S. Van Dine; “The Winter Murder Case”; Clube do Crime; 1995; Publicações Europa-América; pág 89

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2 comentários

  1. Eu estAva muito ansiosa por esse artigo.
    AMO romance policial. AMO o suspense. Tenho a coleção completa da Gerritsen e Do King. Porém, sempre tive receio em escrever. Com esse artigo tenho uma noção do que devo ou não fazer.
    Agora estou confiante para criar minha primeira fic investigativa

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