Resenha: O Guia do Mochileiro das Galáxias

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Por: Rodrigo Caetano

Não entre em pânico! Sério, galera, está tudo bem. Eu sei que hoje não é dia de postagem, mas tem resenha hoje mesmo assim. Sabe porquê? Por que hoje é dia 25 de maio, o dia de homenagear ninguém menos que Douglas Adams.

Gente, de verdade, se vocês não sabem quem ele é, deem uma olhada. Esse cara era um gênio!

E o dia 25 de maio foi o dia escolhido pelos seus fãs para honrar esse grande escritor, e passou a ser conhecido como dia internacional da toalha. Sim! Da toalha! Hoje é o International Towel Day, e não é porque Douglas Adams foi o cara que inventou a toalha (eu juro que, se você ler o livro, isso tudo vai fazer sentido — talvez). Na verdade, o que ele fez foi escrever um livro.

Um não, uma trilogia. Uma das trilogias mais sensacionais que eu já li. A única que tem cinco (!!!)livros.

Então, sem mais delongas, venho aqui apresentar para vocês a resenha de O Guia do Mochileiro das Galáxias, o “volume um de uma trilogia de cinco”, que é seguido por “O restaurante no fim do universo”’; “A vida, o universo e tudo o mais”; “Até mais e obrigado pelos peixes”; e “Praticamente inofensiva”.

Título em Português: O Guia do Mochileiro das Galáxias

Título Original: The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy

Editora: Arqueiro

Sinopse: “Considerado um dos maiores clássicos da literatura de ficção científica, O Guia do Mochileiro das Galáxias vem encantando gerações de leitores ao redor do mundo com seu humor afiado.

Este é o primeiro título da famosa série escrita por Douglas Adams, que conta as aventuras espaciais do inglês Arthur Dent e de seu amigo Ford Prefect.

A dupla escapa da destruição da Terra pegando carona numa nave alienígena, graças aos conhecimentos de Prefect, um E.T., que vivia disfarçado de ator desempregado enquanto fazia pesquisa de campo para a nova edição do Guia do Mochileiro das Galáxias, o melhor guia de viagem interplanetário.

Mestre da sátira, Douglas Adams cria personagens inesquecíveis e situações mirabolantes para debochar da burocracia, dos políticos, da “alta cultura” e de diversas instituições atuais. Seu livro, que trata em última instância da busca do sentido da vida, não só diverte como também faz pensar”.


Resenha:


Gente, deixa eu começar dizendo que, apesar de ser uma ficção cientifica, esse é um livro, primordialmente, de comédia. E, tendo dito que é uma comédia, devo alertar que é o livro de filosofia mais engraçado que eu já li. Sem brincadeira, como a sinopse bem diz, ele busca descobrir o sentido da vida, e, se pode apresentar uma conclusão, ela vem escrita, de cara, na capa: “não entre em pânico”.

Nosso protagonista se chama Arthur Dent, um inglês que, como todo bom inglês, tem um apego a suas tradições e a seus costumes — como, por exemplo, a hora do chá. Seu melhor amigo se chama Ford Prefect — o nome de um carro muito popular há algumas décadas na Inglaterra. Arthur nem desconfia, mas seu amigo é, na verdade, um alienígena que trabalha para o Guia do Mochileiro das Galáxias, um repositório de conhecimento intergaláctico.

O Guia é, talvez, a coisa mais difícil de explicar dessa história inteira. Mas, de maneira simples, podemos dizer que ele é um livro, em forma de tablet— é até difícil acreditar que Douglas Adamsfoi publicado na década de 1970 — que funciona como uma Wikipédia de todo o universo conhecido — só que o universo conhecido é mesmo muito, muito grande. Nem dizer que é infinito ajuda a entender o quão grande ele é. Não se trata apenas do sistema solar e da nossa galáxia.

Ponto é que, em uma bela quinta-feira, Arthur percebe que — para sua surpresa — estão prestes a demolir sua recatada casa para construir uma estrada. E, pouco depois, seu amigo Ford o encontra discutindo com o pessoal da obra, e avisa que ele não tem porque se preocupar com sua casa, pois o planeta inteiro está prestes a ser destruído para a construção de uma hipervia espacial. E ele fala assim, como se não fosse nada demais, apenas mais uma típica quinta-feira.

Ford consegue fugir da terra com Arthur antes da destruição do planeta, e isso dá início a mais maravilhosa saga espacial já contada.

Misturando o absurdo com o comum, o autor brinca com política, com burocratas, com todas as instituições que conhecemos, e faz graça de tudo o que você possa imaginar, sem sequer te contar que está fazendo graça. É assim que ele te faz questionar o quão importante realmente são as coisas que você acha que são importantes. Você ri de tão absurdas que são as situações, e, quando percebe, chega à conclusão de que, na verdade, a vida não está nem um pouquinho — mas nem um “pouquinhozinho” mesmo — sob o seu controle.

Sem querer, quase em um passe de mágica, você percebe que está rindo dos próprios planos que fez para a sua vida, e é aí que entra a graça de tudo — justamente quando você para de rir. É aí que nós descobrimos o verdadeiro sentido da vida, e que o aviso que vem impresso na capa — na grande maioria delas, pelo menos — do livro vem bem a calhar: não entre em pânico!

O livro é tão sensacional e tão reconhecido que já inspirou muitas das coisas com as quais estamos acostumados. O tradutor oficial do Yahoo, durante muito tempo, tinha o símbolo de um peixinho amarelo, que é uma clara referência ao peixe-babel, um animal que Ford apresenta a Arthur nos primeiros capítulos do livro, capaz de fazer você entender qualquer idioma falado já inventado ou que possa ser inventado no futuro.

É o tipo de livro que você pode ler com dez anos ou com cinquenta, e você vai continuar aproveitando tudo que ele tem para dar. E você vai curtir mais ainda se ler aos dez anos e, de novo, aos cinquenta. E você pode ser astrofísico ou sociólogo, professor de jardim de infância ou de Harvard, o livro vai continuar despertando risadas das mais sinceras e pensamentos dos mais assustadores e revolucionários que você já teve. É, literalmente, um guia para o resto da sua vida. Afinal, o que somos nós, se não mochileiros das galáxias?

Não percam tempo. Vocês não têm ideia da maravilha que esse livro é. E ele é curto, tem menos de duzentas páginas, e costuma ser vendido em qualquer lugar da internet, por preços bem acessíveis. Você pode até comprar os cinco livros da trilogia, juntos, normalmente pelo mesmo preço de um livro comum.

Garanto que vocês não vão se arrepender, é só prestarem bastante atenção em onde guardam suas toalhas, e não entrar em pânico.

Um abraço e até a próxima! Feliz dia da toalha!
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Narrando uma história em 2ª pessoa

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Por: Helen Corrêa

Quando estamos no Ensino Fundamental, aprendemos nas aulas de português que uma história pode ser contada de diversas formas. Estudamos os tipos de narradores que existem e que podem ser usados. Em geral, os professores nos ensinam que há, basicamente, dois tipos deles:

1. O narrador em primeira pessoa (eu), que é aquele que, além de contar a história, também participa dela, e que pode ou não ser um personagem principal. Ele sempre vai narrar a história do ponto de vista dele, contando sobre como ele percebeu os acontecimentos e as pessoas ao seu redor;

2. O narrador em terceira pessoa (ele/ela), que é aquele que não está participando da história, e pode ou não ser onisciente (aquele que sabe todas as coisas). O narrador onisciente, por exemplo, pode ser neutro, apenas relatando as coisas que acontecem, ou pode também ser seletivo, pois, além de narrar a história, atreve-se a dar suas próprias opiniões sobre as atitudes, emoções ou pensamentos dos personagens, e isso pode até mesmo influenciar o julgamento do leitor sobre os envolvidos na trama.

Esses dois tipos de narração já foram abordados no nosso blog anteriormente e você pode encontrá-los neste link aqui.

Infelizmente, não são muitas pessoas que são apresentadas ao “universo” das histórias que são contadas em segunda pessoa (tu/você). Lembrando que, embora “você” seja um pronome considerado da terceira pessoa, hoje em dia usamos para nos referir à segunda pessoa também. 

Este não foi um problema pelo qual somente eu passei durante os tempos de escola. Várias pessoas também não conhecem nada ou muito pouco sobre o assunto, sem contar que os livros com esse tipo de escrita são extremamente reduzidos perto dos que são publicados em primeira ou terceira pessoa.

Nas histórias narradas em segunda pessoa, é como se o narrador estivesse dialogando com o leitor. Certo, isso até uma história escrita em primeira pessoa pode fazer. Portanto, mais que apenas dialogar com o leitor, é como se o narrador estivesse narrando uma história sobre você, para você mesmo.


Opa, mas espera um pouco, tia Helen. Então você está dizendo que as histórias narradas em segunda pessoa não possuem um personagem principal fixo, pois esse personagem sempre vai acabar sendo quem está lendo a história? Isso é a coisa mais surreal que eu já vi na minha vida!


Não, não é bem assim que a coisa funciona. O escritor da história vai apresentar, sim, um protagonista específico, com nome, características próprias e tudo que ele tiver direito. E ele apresentará tudo isso dentro da história. O que estará acontecendo é que, como a narrativa estará em segunda pessoa, você, enquanto lê, assumirá passivamente o papel daquele personagem. Será como se você estivesse na pele dele.


Okay, tia Helen, ainda não entendi nada. Você poderia dar alguns exemplos práticos?


Claro que sim, pequena criança. Para quem não está acostumado, pode parecer uma coisa de outro mundo, mas, muito pelo contrário, é um tipo de narrativa que está inserida em vários contextos. Vejamos alguns deles:

• Nas letras de músicas

Let Her Go, do cantor Passenger, é escrita em segunda pessoa. Leia o refrão e a estrofe abaixo, que estão traduzidos da música original em inglês:

“Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo,
Só sente falta do sol quando começa a nevar,
Só sabe que a ama quando a deixa ir.
Só sabe que tem estado bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir
E você a deixou ir.”

“Olhando para o fundo do seu copo,
Esperando que um dia você faça um sonho durar,
Porque sonhos chegam devagar e se vão muito rápido.
Você a vê quando fecha seus olhos,
Talvez um dia você entenda por que
Tudo o que você toca certamente, morre.”

Veja que aqui temos uma situação genérica, pois o compositor não cita nomes. Ele não conta na letra da música com quem é que está acontecendo a situação. Mas ele te faz pensar que tudo isso poderia estar acontecendo com você, certo? E isso, querendo ou não, cria em nós uma certa empatia com o que está sendo apresentado diante de nossos olhos. Sentimos como se estivéssemos vivendo a história na nossa própria pele. A gente se imagina lá, olhando para o fundo de um copo, pensando que todas as coisas nas quais nos envolvemos não dá certo. E que, realmente, a gente só percebe que ama alguém depois que perde. 

Percebemos as coisas de maneira mais real, mais profunda, coisa que, nem sempre, um texto escrito em primeira ou terceira pessoa poderia nos fazer sentir. Pode ser uma situação que o Passenger viveu? Sim, sem dúvidas. Mas ele, em sua escrita, nos transporta como protagonistas para aquela situação, e é como se ele estivesse contando um fato que está acontecendo conosco.

• Nos livros 

Pois é, amiguinho. Se você pensa que esse negócio de escrever em segunda pessoa é coisa de escritor de fanfic ou de gente não muito conhecida no meio literário você está redondamente enganado. O escritor mexicano Carlos Fuentes, que possui diversas obras e também foi um grande admirador de Machado de Assis, escreveu, no ano de 1962, um conto narrado em segunda pessoa chamado Aura. Segue-se um pequeno trecho da história, que, prometo, não compromete em nada a sua leitura caso você nunca tenha lido o conto:



“Você veste a camisa, passa um papel nas pontas dos seus sapatos e escuta, desta vez, o aviso do sino que parece vaguear pelos corredores da casa e fecha a porta. Você olha para o corredor; Aura anda com o sino na mão, inclina a cabeça para vê-lo, lhe diz que o café da manhã está pronto.”


Neste caso, Carlos Fuentes já define quem é o protagonista da ação. Ele é Felipe Montero, um jovem historiador. Então, todas as vezes que o narrador menciona “você”, ele, na verdade, está falando de Felipe. E ele apresenta toda a história de Felipe como se você, leitor, fosse esse rapaz. Como já disse no exemplo anterior, isso faz com que percebamos de maneira mais intensa os acontecimentos descritos. E não pense que o autor escolheu esta forma de narrativa aleatoriamente, ele tinha um propósito para isso. Como esse conto gira em torno de um mistério, é cheio de suspense, a narração em segunda pessoa nos transporta de maneira brilhante para dentro daquele universo misterioso, fazendo-nos sentir a atmosfera intrigante na qual o personagem se encontra de maneira bastante intensa.

• Nas conversas do nosso cotidiano, nas palestras, sermões, etc.

Você faz isso de maneira natural e nem percebe. Quando queremos dar um exemplo de uma situação, e queremos que a pessoa que está nos ouvindo se coloque no lugar do outro que vivenciou a experiência, seja lá quem esse outro for, nós usamos o recurso da narração em segunda pessoa. Vamos imaginar o seguinte diálogo do Joãozinho com a Mariazinha. Ela tem uma visão bem equivocada sobre a profissão de um professor e ele tentará mostrar isso a ela:

Mariazinha: Vamos ao cinema hoje?

Joãozinho: Acho que vamos ter que deixar pra próxima, porque hoje eu estou exausto. Vida de professor não é fácil não, amiga.

Mariazinha: Ah, Joãozinho! Para com isso, vai. Você está reclamando de barriga cheia. Todo mundo sabe que professor vive reclamando, mas tem férias duas vezes ao ano e só anda de “carrão” por aí.

Joãozinho: É mesmo, Mariazinha? Então imagine que você passou quatro anos da sua vida numa faculdade para conseguir a sua graduação em uma Licenciatura. Você estudou aquilo que gosta e está ansiosa para ensinar para seus alunos tudo aquilo que você aprendeu. Você consegue um emprego no sistema público, e começa a sua carreira toda animada, pensando em mil e uma maneiras de aplicar o seu conteúdo de maneira interessante e divertida. Porém, quando você chega na escola para dar aula, você se depara com salas com mais de quarenta alunos dentro de um cubículo, sem ventiladores, a maioria dos recursos que precisa para aplicar suas boas ideias não estão disponíveis na escola, e o seu salário é uma piada. Você tem que trabalhar durante o período que está na escola e fora dele, tendo que planejar aulas e corrigir provas. Então, para conseguir um salário decente, você consegue dobrar a sua carga semanal de trabalho. Mas, infelizmente, sua escola continua sem ventiladores, sem recursos. Você dobra o seu salário, mas também dobra a quantidade de trabalho dentro e fora da escola. Para ganhar um salário que não faz jus ao tanto de anos que você passou estudando na vida. Com o passar do tempo você perde a voz, perde o ânimo de ir trabalhar e adquire um stress enorme por conta de tudo isso. Como você se sentiria, Mariazinha? Ainda continuaria achando que professor reclama de barriga cheia?

Mariazinha: ...

Vocês perceberam que, no desabafo do Joãozinho para a Mariazinha, ele transporta toda a situação que aconteceu com ele, para ela? E isso foi possível usando a narração em segunda pessoa. Joãozinho a colocou no lugar dele.

Talvez você já tenha notado que, embora não gostemos de admitir, é um pouco difícil entendermos coisas pelas quais não passamos na vida. Contudo, se fazemos um esforço e nos imaginamos no lugar do outro, nos tornamos pessoas mais tolerantes e capazes de exercer a compreensão. Isso é o que chamamos de empatia, que segundo o dicionário do Google é a “capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela”. É exatamente isso que a narrativa em segunda pessoa tem e faz de melhor, ela dá ao leitor a oportunidade de ser extremamente empático com o personagem a ele apresentado. Ela transporta a alma do personagem para dentro do próprio leitor.


Nossa, tia Helen, realmente, narrar uma história assim deve ser bem interessante! Mas, sejamos sinceros, não deve ser todo esse mar de rosas também, né? Tenho certeza que existem desvantagens ao escrever em segunda pessoa. Já pode ir falando quais são elas!


Já que você insiste, admito que existem algumas desvantagens, sim, meu caro. Mas vou listar também as vantagens para que você saiba que existem mais delas do que as desvantagens que podem surgir no meio do caminho.

As Vantagens


Provocar maior empatia do leitor para com o personagem


Como já demonstrado, isso se torna muito útil em histórias que são centradas mais nos pensamentos e emoções do personagem, na forma como ele percebe o mundo. Nesse caso, a narrativa te induzirá a julgar menos e a entender mais o porquê de determinadas ações. 


A narrativa em segunda pessoa é sempre uma verdade


Quando uma história é narrada em primeira pessoa, nem sempre aquilo que o narrador te conta é verdadeiro. Como ele não é onisciente, ele apenas te apresentará a maneira como ele enxerga o mundo e as pessoas. Ele irá fazer as suposições dele, e você decidirá se acredita nele ou não. Pode também acontecer de o narrador estar não apenas narrando as suposições dele para você, mas, de fato, estar mentindo. Você não presenciou as situações. Você não estava na cena. Nada o impede de dizer a você que estava feliz com determinado acontecimento quando, na verdade, ele estava sentindo raiva. Já com a narrativa em segunda pessoa isso se torna impossível de acontecer, pois como o escritor está ditando a maneira como “você” sente, como “você” enxerga o mundo, tudo que acontece relacionado ao protagonista sempre será uma verdade, pois ninguém melhor do que “você” para saber as coisas que te acontecem. O personagem da história poderá até presumir e não ter certeza sobre muitas coisas, mas como ele é “você”, você sempre saberá se está mentindo, se não tem certeza de algo, se está levantando suposições. Por mais que “você” esteja equivocado sobre algo, “você” estará, por assim dizer, “sinceramente enganado”.


Evitar confusões em diálogos entre personagens do mesmo gênero


Uma das coisas que irrita um leitor é quando ele está lendo determinada cena que se passa entre pessoas do mesmo gênero e não sabe se o “ele/ela” escrito pelo autor foi direcionado ao personagem “A” ou ao personagem “B”. Isso acontece com frequência em histórias narradas em terceira pessoa, e então o escritor tem que usar de algumas artimanhas para fazer essa diferenciação. Na narrativa em segunda pessoa, suprimimos esse problema pelo simples fato de que o personagem principal não está sendo descrito na terceira pessoa, e sim na segunda, pois ele é “você”, e não “ele/ela”. Sendo assim, se você for escrever uma história na qual os personagens principais são do mesmo gênero, estando ela a abordar uma relação homoafetiva ou não, esse tipo de narração é uma boa pedida.

As Desvantagens


Visão limitada dos fatos


Assim como acontece numa narração em primeira pessoa, uma história narrada em segunda pessoa também possui uma visão limitada sobre as coisas que acontecem. Em certas histórias escritas em terceira pessoa o leitor consegue saber o que se passa em diversos núcleos da trama, estando o protagonista presente na cena, ou não. Isso não é possível na narrativa em segunda pessoa. Contudo, existe uma forma de driblarmos essa situação. Eu já acompanhei histórias muito boas, de excelente escrita e narradas em segunda pessoa, que alternavam os pontos de vista dos protagonistas. 

Claro que, como já dito em outros artigos do nosso blog, não é de bom tom que um autor alterne os pontos de vista de uma história a todo o momento somente porque a forma com a qual ele decidiu escrever a história não lhe proporciona o privilégio de saber o que se passa, com tudo e todos, a todo o momento. Isso deixa a cabeça do leitor confusa, e ele poderá até mesmo confundir ou ter dúvidas sobre com quem os fatos narrados estão acontecendo. Mas se você souber usar com extremo cuidado o recurso da alternância, isso pode ser uma saída bem interessante para o problema. 

Por exemplo, em determinada história que acompanho, a narrativa é feita em segunda pessoa, e os pontos de vistas alternam-se somente entre duas pessoas, que são as protagonistas da história. Essa alternância de pontos de vista ocorre apenas uma vez a cada capítulo, e as autoras deixaram bem claro para os leitores como ocorreria essa alternância. Então, sempre que ela ocorre, estamos todos cientes e não temos problemas quanto a isso. Mesmo assim, o conselho que deixo é, se você puder evitar uma possível alternância no mesmo capítulo, evite.Se puder escrever a história toda apenas sob um ponto de vista, faça.

Você irá perceber que nem toda história em segunda pessoa ficará boa com alternância de pontos de vista (esse recurso você usa apenas se estiver bastante seguro que aquilo é necessário. As pessoas não precisam saber de tudo sempre. Na vida real nós convivemos muito bem com esse fato), e que nem toda história que você deseja contar irá ficar boa com uma narrativa em segunda pessoa. Tudo irá depender das suas motivações, de como você quer construir a sua história e aonde você pretende chegar com ela. Acostumar-se a escrever e até mesmo ler nessa forma específica de narração leva tempo e treino. Portanto, o último conselho que a tia Helen deixa para vocês é:

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Anatomia de um Canalha

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Por: Clara de Assis

Os Libertinos são os melhores!

Desde que o mundo é mundo (dentro da literatura), os canalhas, sedutores e charmosos libertinos são os personagens masculinos mais cobiçados. E sinto muito para quem está enrugando o nariz, mas há provas de que a temática “personagem canalha” vende muito livro e movimenta muito o mundo das fanfics. O motivo? Eles sempre falam as melhores sem-vergonhices e todos torcem para que, no final, estejam rastejando pela atenção do seu par (independentemente de ela(e) ser chata(o) ou sagaz).

Trecho 

“Sobre Heróis e Tumbas” (1961), de Ernesto Sabato: 

“Ocorre-me que ao ler a história de Norma Pugliese alguns de vocês pensarão que sou um canalha. Desde já lhes digo que acertaram. Considero-me um canalha e não tenho o menor respeito por minha pessoa. Sou um indivíduo que se aprofundou em sua própria consciência, e quem é que, tendo se afundado nos vincos de sua consciência, poderá respeitar-se? 

Ao menos considero-me honesto, pois não me engano sobre mim mesmo nem tento enganar os demais. Vocês talvez me perguntem, então, como enganei sem o menor escrúpulo tantos infelizes e mulheres que cruzaram meu caminho. Mas acontece que há enganos e enganos, senhores. Esses enganos são pequenos, não têm importância. 

Sou um investigador do Mal, e como se poderia investigar o Mal sem afundar-se até o pescoço na sujeira? Vocês me dirão que ao que tudo indica eu encontro um vivo prazer em fazê-lo, em vez da indignação ou do asco que deveria sentir um autêntico investigador que se vê forçado a fazê-lo por desagradável obrigação. Também está correto e eu o reconheço publicamente. Veem como sou honrado? Não disse em momento algum que sou boa pessoa: disse que sou um investigador do Mal, o que é muito diferente. E além disso reconheci que sou um canalha. ”

Livro traduzido para 21 idiomas (apenas).

Trecho

“O Vale das Bonecas” (1967), de Jacqueline Susann:

“Henry mergulhou na poltrona de couro. Tomou as duas mãos de Anne e disse: 

— Ouça, Anne, se eu tivesse um filho, gostaria que ele fosse exatamente como Lyon. Mas, se eu tivesse uma filha, dir-lhe-ia para fugir dele como do diabo. 

— Isso não faz muito sentido. 

Henry sacudiu os ombros. 

— É que conseguem tudo com muita facilidade. Allen consegue-o por causa do dinheiro, Lyon, porque é diabolicamente bonito. De certo modo, compreendo-os perfeitamente. Por que iriam eles fixar-se em uma única mulher, se podem tê-las todas? Basta escolher.”


Agora, quem aqui estava vivo em 61? Talvez 67? Vejo poucos levantando a mão.... Será que da década de 60 para os tempos atuais algo mudou? Será que os leitores ficaram mais exigentes para com os mocinhos de moral ilibada? Vocês sabem que não. E, assim sendo, vamos dissecar esse tipo de personagem que atrai tantos leitores. 

O que faz um personagem canalha, libertino, sem-vergonha, ser tão adorável? Quais os elementos para compor um personagem assim? Precisa ter olhos azuis e nariz grego? Tem de ser a cara do Henry Cavil? Precisa ser rico? Só funciona se ele for empresário?

Vamos ponto a ponto tentar cobrir o máximo de características para este personagem.

  • Enredo: Não importa se você vai adequar seu personagem no mundo real ou transformá-lo em um dos deuses do Olimpo, o importante aqui, tratando de enredo, é que o personagem deve estar confortável em sua época e seu entorno. Respeite o seu personagem, sempre. Dê a ele subsídios para desenvolver sua personalidade libertina: cafés, bares, danceterias, biblioteca ou até em templo religioso, não importa, seu personagem deve corromper outro(s) em benefício próprio, porém, isso não o transformará, necessariamente, em um vilão. Esse tipo de personagem fica na corda bamba entre o bem e o mal. 
  • Características físicas: Lindo não precisa ser, acredite. Vide Loretta Chase com o Príncipe dos Canalhas, carinhosamente apelidado de Lorde Belzebu, que tinha um grande nariz adunco e o tinham como um homem feio. 

Então, se não precisa ser bonitão, deverá ser rico?

  • Situação financeira: Bem.... Na vida de um personagem, as facilidades proporcionadas pelo dinheiro, ajudam, e muito ao personagem. Pesquisei bastante e não consegui encontrar um libertino nascido e criado na pobreza absoluta. Porém, isso não significa que não possa desenhar um personagem sem muitos recursos que seja sedutor. Também encontrei alguns aristocratas falidos de galanteios mais elaborados, incluindo o bom e velho “você me deve esse favor” a fim de conseguir um quarto, um veículo, ou qualquer coisa que servisse de instrumento de sedução. (Encontrei bastantes personagens pobres e de moral incorruptível, e isso foi um bálsamo). Os canalhas, e senhores ricos, como Don Juan são mestres em seduzir boas e iludidas moçoilas. Já o Duque de Ainswood, Vere Mallory, em O último dos Canalhas, de Loretta Chase, se nega a receber o ducado, ele prefere viver como um simples aristocrata, viajando pelo mundo e colecionando conquistas. Ainda assim, é um personagem que tem boa situação financeira, ainda que sem o ducado.

Outro personagem com título e canalhice de sobra foi o Marquês de Sade. Esse... uau, não fazia distinção de gênero, o que fosse para prazer mútuo vinha de bom grado.


“...e que nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes.” ― Marquês de Sade

Eu me lembro de um que não era nada a não ser um boa-lábia, que abriu mão de estar ao lado daquela por quem seu coração batia mais forte, para ficar ao lado de quem fazia seu estômago roncar mais baixo, foi Fernando Seixas, em Senhora, de José de Alencar (Ah, eu sei! Sim, eu amo esse personagem e não poderia deixar de citá-lo). Fernando amava Aurélia, mas preferiu Adelaide, que era rica, já que ele era tão pobre quanto Aurélia e não acreditava em “um amor e uma cabana”. O relacionamento com Adelaide não foi adiante e Fernando se viu em maus lençóis, pois gastou todas as economias da família para se passar por um nobre rapaz, gostos caros e refinados, passeios, restaurantes... E quando foi preciso que buscasse o dinheiro para o casamento da irmã, bem, não tinha nada, certo? Foi aí que ele se casou com Aurélia, que herdou uma grana preta e comprou o marido, por vingança. 

  • Personalidade: Personagens libertinos e canalhas não são, exatamente, mocinhos exatos ou vilões perversos, o que não extingue a possibilidade de um ou outro. Vejamos os canalhas, imorais e apaixonados.

Personagens contemporâneos que são destaque (não por mim, mas pelo número de venda de livros, traduções e prêmios):

“— Você não me conhece. Não sou tensa.

— Ah, por favor. Nunca vi uma pessoa precisar transar tanto como você. Não sei o que seu noivo está fazendo contigo. Mas o que ele estiver fazendo, não está fazendo direito.” — Atraído, Emma Chase.

O canalha geralmente choca não só seu par, mas o leitor, seus pensamentos iniciais geralmente são egoístas.

“Ela ofereceu sua amizade, eu queria seu corpo. Ela ofereceu seu corpo, eu queria sequestrar seus pensamentos. Ela ofereceu seus pensamentos, eu queria seu coração.” — Livro: Playboy Irresistível, Christina Lauren.

Porém, não se esqueça do coração de alguns canalhas, em resumo, uma parte deles sempre esperam ser salvos, ou coisa parecida...


Belo Desastre – Jamie McGuire.

Apenas um adendo, os Irmãos Maddox, da série de Jamie MacGuire, não são ricos, ao contrário, trabalham bastante para conseguirem as coisas, mas, novamente é bom salientar, que eles não ficam sentados no sofá esperando que tudo caia do céu. Levar alguém para jantar é mais sedutor que pegar a fila do sopão, e esses personagens sabem disso. Não são mau-caráter, e sua canalhice reside na infidelidade, ou, no trato com seus pares, devidamente descartados. Afinal, eles estavam destinados a serem salvos pela personagem “certa” (personagem principal). 

Pelo visto, para um personagem canalha estar bem embasado, é necessário que ele esteja confortável em seu ambiente, que possa transitar pelos núcleos com desenvoltura, é um personagem seguro e, muita das vezes, autossuficiente.

O dinheiro não é tudo para quem sabe vender seu peixe, mas é importante lembrar que as facilidades que o conforto material financia a fim de que o personagem possa exercer certo... charme. Ele é vaidoso, e gosta de saber que chama a atenção. Bons cortes de tecido. Belos calçados... Ajuda bastante.

Por fim, tenha em mente que eles precisam impactar com elegância. Cativar o leitor, que vai torcer para que esse personagem quebre a cara, abandonado ou apaixonado.
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Uma Reflexão Sobre o Processo Criativo (01/03)

quarta-feira, 11 de maio de 2016


Por: Edgar Varenberg 

Quando falamos em processo criativo, tendemos a pensar em aspectos simples: basicamente tendemos a aceitar que toda a nossa arte é fruto de puramente “inspiração”. Entretanto, o ramo da criatividade traz conceitos maiores que podem ajudar qualquer um a entender melhor como funciona a planificação de uma ideia. E é disso que trataremos neste artigo. O intuito deste artigo não é ajudar a ter um processo criativo mais eficaz, mas, sim, refletir a respeito de como funciona.

Antes de tudo, é importante refletir sobre o conceito de criatividade. Tal conceito é visto de maneiras diferentes em diferentes áreas; entretanto, todas possuem um consenso: a criatividade trata-se de um processo da criação do novo, seja em cima de algo antigo, seja não tendo base alguma. Mas o que seria algo novo? Como eu posso dizer que algo é novo, ainda mais no campo da literatura em que as ideias parecem cada vez mais restritas? Reparem que quando eu digo algo novo, é bom também refletirmos que há uma distância entre criatividade e originalidade. É daí que podemos começar a refletir sobre o processo criativo.

A criatividade não é nada sem o ser humano e vice-versa. Se temos três “doses” de ideias sobre, por exemplo, aviões, e distribuirmos tais “doses” para três humanos diferentes, teremos três obras diferentes sobre aviões; todos podem até falar dos mesmos detalhes, mas a nossa cognição, o jeito de escrever, o jeito de pensar, os conhecimentos prévios, e até as tão famosas inspirações, nos diferem no que se diz respeito da expressão do processo criativo.

O que você quer com isso, Tio Edgar?

A criatividade é um bem humano, que funciona independente entre cada indivíduo mediante fatores internos e externos que compõem a mente de cada um. Em outras palavras: a criatividade é a mesma, mas a forma de expressar dos seres humanos não; e apenas essa diferença já é o suficiente para transformar uma obra.

Para este artigo vamos explorar apenas três destes fatores, os que eu julgo como principais: consciência, memória e potencial. Contudo, nesta primeira parte, vamos tratar apenas da consciência.

Na planificação de pensamentos, mais especificamente quando estamos criando uma história desde o início, temos por instinto pegar todas as nossas bases de conhecimento e começar a montar diversas peças, que, aos tons de originalidade, se tornam nosso material. Mas de onde tiramos tais materiais? Na verdade, a planificação de ideias está diretamente ligada à inconsciência criativa; por isso é explicável o fenômeno de ser tão difícil começar algo do zero, da história parecer confusa e de não sabermos como guiá-la no início. E muitas vezes, nessas ocasiões, um beta-reader acaba nos salvando, não é mesmo? 

Ok, mas o que saber dessa inconsciência afeta no meu processo criativo?

O desenvolvimento da consciência criativa é fundamental para a compreensão dos campos que estamos criando cada vez mais sem percebemos. Acabei de citar acima a salvação de um beta-reader; eles, neste caso, funcionam simplesmente como a nossa consciência criativa, pois são eles que apontam positividades e negatividades de aspectos que ainda estão no pensamento, que não foram ainda para o papel, o que chamamos informalmente de “rascunho de ideias”.

Vamos colocar isso na mente então: tudo que ainda não foi passado para o papel pertence ao campo da consciência criativa.

Quando criamos um personagem, já pensamos logo naquele ator que admiramos que daria um bom “cast”, ou pensamos em outro personagem prévio, mesmo que minimamente. Ocorre muito também o efeito “Frankenstein”, que consiste em você pegar várias partes para construir um todo (mas isso será melhor discutido na segunda parte do artigo, pois se trata da memória criativa). E, para esta reflexão, eu quero estabelecer um comparativo. Imagina que você está bolando um antagonista para a sua história. Normalmente, de cara, você já pensa “Tem que ser alguém com personalidade diferente do protagonista!”. Ué, mas o que impede o antagonista de ter personalidade semelhante ao protagonista? Na hora de criar uma briga, você já pensa em quem vai vencer. Ué, por que não empatar? Entendem o que eu quero dizer? Não, então para o próximo parágrafo.

Aspectos inconscientes do nosso processo criativo tendem a seguir linhagens que estamos acostumadas a acompanhar em nossas leituras, nossas vivências ou simplesmente por nossas mentes serem preguiçosas. Citei acima o exemplo das lutas sempre terem um vencedor; mas, se você parar para pensar, um “empate” é sempre feito de propósito pelo autor; uma vitória não. O mesmo vale para o exemplo do antagonista: um antagonista muito parecido com o protagonista é feito propositalmente; um diferente não. Tudo que foge do padrão inconsciente é feito propositalmente porque passa a ser consciente.

O que isso significa, Edgar?

Que a partir do momento em que separamos o que deve ou não ser consciente no nosso trabalho, temos um controle diferenciado das ideias. E o objetivo deste artigo é justamente refletirmos sobre isso para usarmos a nosso favor tal habilidade cognitiva. Mas como ser consciente das minhas ideias pode me ajudar a desenvolver melhor o meu processo criativo?

Suponhamos que você esteja no terceiro capítulo da sua fanfic nova, você está lá abalando, recebendo elogios do Brasil inteiro, bem Andrea Mello, e, BOMBA, bloqueio criativo. Você não sabe como fazer a cena do encontro da Yrisbelle com o Carlos Daniel Jorge, não sabe o porquê de um diálogo entre eles começar, como juntar a história de ambos, acabou, e agora? É aí que entra a consciência criativa. Quando temos ideias e mais ideias, geralmente oriundas do que conhecemos como inspiração, elas não estão muito filtradas, portanto, muito abrangentes, são todas inconscientes criativas.

Mas, Edgar, se o consciente é uma limitação do inconsciente, como isso pode me ajudar a combater o bloqueio, que é outra limitação?

Primeiramente, a função da consciência criativa não é combater nada. Tal consciência é usada para termos uma segunda forma de pensar, totalmente diferente da primeira; então se uma está emperrada, usamos a outra, simples. Usar essa “segunda cognição” nos ajuda a obter resultados que nossa forma comum de pensar não nos permitiria; e por que é importante fazermos uso disso? Porque toda ideia que dá certo abre portas para novas ideias. Então melhor que ter uma porta aberta é ter duas.

Praticamente falando, temos a seguinte situação, baseada no exemplo que eu dei mais acima: está impossível criar alguma ligação entre Yrisbelle e Carlos Daniel Jorge. Ora de trabalhar nossa cognição, toda a nossa consciência, finge que deu aquele freeze dramático estilo Elsa e vamos pensar:

Impossível eles se falarem? Por quê? Por acaso um deles está preso num buraco negro?

Não. Então, SIM, é possível eles se falarem, vamos acordar!

Ah, mas se ela chegar e falar com ele do nada, não vai combinar com a personalidade da personagem, ela é muito tímida, jamais faria isso. E ele nem sabe da existência dela.

Tá, ele não falar é plausível. Agora ela. Se ela quer mesmo, ela vai. Mas Edgar, você está falando para eu ir contra a personalidade da minha personagem?

SIM. Humanos não são padrões que nunca saem do seu estado, mas não é conversa pra esse artigo. O que eu quero trazer como reflexão para esse caso, é mostrar que a impossibilidade não está na situação, mas nas limitações que a nossa inconsciência criativa nos impõe. Inconscientemente, foi colocado na cabeça do autor que a menina tímida jamais teria coragem de falar com o cara do nada. Entretanto, inconscientemente, também sabemos que o cara não fala com a menina porque ele não sabe da existência dela. Então vemos que essa inconsciência nos guia para informações boas e ruins (não diria ruins, diria mais “limitadas”). Então cabe à nossa consciência criativa quebrar as barreiras daquilo que, sem sabermos, acabamos por limitar.

Tá, mas é assim? Ela fala com o cara e fim? Mas como eu vou fazer isso sem parecer forçado? Isso aí já fica para o tópico sobre potencial criativo, mas o que temos que refletir no momento é que muitas limitações são criadas dentro da nossa própria mente, e que podem facilmente serem “corrigidas” para não atrapalhar nosso fluxo criativo.

Para encerrarmos, um pequeno resumo: criamos tudo inconscientemente porque a cognição humana trabalha assim. Quando criamos algo novo, tendemos a criar blocos de informações inconscientes que nos servem para estabelecer informações essenciais para o prosseguimento do enredo, pois são informações básicas que nos impedem quase sempre de cometer erros de enredo; todavia, esses blocos também acabam por nos limitar, pois trazem conceitos que muitas vezes podem ser quebrados se notarmos que eles existem e, em determinados conceitos, não precisam fazer sentido.

Referências:

http://www.mariosantiago.net/textos%20em%20pdf/criatividade%20e%20processos%20de%20cria%C3%A7%C3%A3o.pdf
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-58212009000300017
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Como escrever um romance histórico

terça-feira, 3 de maio de 2016

Por: Estrela de Rubi

Olá, meus caros! 

Novo artigo que estou postando aqui, e desta vez é destinado a todos os autores que estão de saco cheio de escrever uma simples ficção.

Querem escrever algo diferente, complexo e desafiante? Então, eu sugiro um romance histórico. 

O que é? É um gênero literário em que a narrativa ficcional se relaciona com os fatos históricos. 

E agora vocês me perguntam:

Cara, tenho que estudar História para escrever esse romance? 

É claro que sim! Não se faz omelete sem partir ovos, meus caros. Um bom romance histórico deve ser documentado de maneira metódica, consultando primeiro as fontes, entre elas a História. 

Mas calma, não precisam bater com a cabeça na parede por causa disso. Hoje em dia é muito fácil e divertido estudar História. Temos um manancial de livros à disposição, filmes, artigos, documentários, programas, crônicas, séries, novelas, teatro e até músicas.

Como começar?

Simples, primeiro vocês terão de escolher a época e o país que desejam retratar. Depois é necessário conhecer toda a realidade dessa época, estar profundamente integrado no seu conjunto e nos seus pormenores, criar um retrato verídico dos costumes e das características desse país. É necessário ter um bom conhecimento de aspectos como a cultura, sociedade, economia, filosofia, política, religião, arte, literatura, etc… Aconselho vocês a fazerem uma planificação sobre todos esses aspectos para que não haja erro na ambientação do enredo. 

Segundo, vocês terão de escolher uma figura pública, ou seja, uma figura histórica que realmente existiu nessa época. Vocês terão de encontrar arquivos, documentos, biografias que descrevam essa pessoa (nomeadamente o que ela fez, como se destacou na História) para que consigam estudar a sua personalidade a fundo. 

Com todo esse estudo realizado, passaremos então para o terceiro e último ponto: prencher os espaços em branco deixados pela História com a nossa imaginação. É isso aí! Para mim, esta é a melhor parte, mas também a mais complexa de todas, porque não podemos simplesmente divagar na nossa imaginação, temos de ter uma linha de orientação cingida aos fatos reais com grande disciplina, seguindo o guião traçado pelas mãos da História. Temos de nos adaptar à personagem que não foi criada por nós e através da coordenação das pesquisas, construir um enredo lógico, credível e susceptível de criar dramatismo e suspense. 

Difícil, não é? Mas não é impossível, gente!

Só temos de ser capazes de retroceder no tempo, trazer os mortos para a vida e, de quebra, preencher esses fatos históricos com a nossa imaginação. Tudo isso para criar uma obra que tenha verosimilhança com uma pessoa e uma época que não existem mais. 

E agora vocês me perguntam:

Cara, e todas as outras personagens também têm de ser reais? 

É aqui que vem a boa notícia! Não, as outras personagens poderão ser inventadas por vocês, mas atenção, elas têm de estar em concordância com os padrões da época retratada. Não se esqueçam que a linguagem das personagens é muito importante e varia de época para época. Não diverge apenas do vocabulário ou da sintaxe, mas também do modo como articulam as ideias, raciocínios ou da forma como expressam as emoções. A dificuldade de um romance histórico é a do chamado “anacronismo”, o erro de atribuir algo (uma ideia, um preconceito, um fato) a uma época que não corresponde. Em tempos diferentes, as ideias variam muito a respeito das mesmas ações, por exemplo, as ações dos homens do séc. XVI não devem ser julgadas à luz das nossas ideias do séc. XXI, entenderam?

Ah, e, por favor, não pensem que um romance histórico é aquele velho cliché que contempla apenas castelos rodeados de fossos, pontes-levadiças, uma espécie de natureza clássica ou lordes. Não, este gênero literário vai muito além disso, ele retrata e contextualiza ambientes verídicos com personagens que viveram neste mundo real. Nós só temos que fazê-los renascer, dar-lhes vida com o poder da nossa imaginação. O romace histórico completa e dá colorido às secas linhas das crônicas, e a ficção, ao animar o tema, ajuda o leitor a formar uma ideia mais clara dos costumes, dos usos, dos hábitos e do espírito que constituem a fisionomia da idade em que se desenrola a ação. 

E é isso aí, gente! Concluindo, para se escrever um romance histórico é necessário vocês terem um passo firme para descer às profundezas da História, terem uma voz imperiosa para interrogar os fantasmas e possuirem uma mão que não trema na hora de escrever as palavras que eles ditam. 

Referências:
NASCIMENTO, N.; PINTO, Castro J. – “A dinâmica da escrita: como escrever com êxito” [4ºedição], Plátano, 2005.
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