Resenhas: 54 Natais e Presente de Natal

domingo, 27 de março de 2016


Na sequência do concurso de Natal levado a cabo em parceria com o blog Manias de Escritos e a Sailor Editions (que pode ser relembrado aqui), seguem as resenhas devidas aos contos que alcançaram o segundo e o terceiro lugares. Muitos parabéns às vencedoras, Taynah Lima e Kaline Bogard, assim como à vencedora do primeiro lugar, Lady Morgana, cujo prémio já não contempla resenha, mas sim outras alegrias.

Fica também o aviso de spoilers nas resenhas.

Terceiro lugar: “54 Natais”, de Taynah Lima
(Resenha por Reepol)

Usando uma escrita suave e breve, Taynah Lima apresenta, em seu conto “54 Natais”, um dos temas chaves quando se trata dessa data comemorativa: a família.

A história em si gira em torno da vida de um jovem rapaz, Tom, que, aos seus treze anos, vê sua vida tomar um rumo completamente oposto, fazendo com que a sua concepção de Natal acabe se distorcendo. Perpassando por alguns momentos chaves em sua vida, o conto nos leva a perceber como as dificuldades enfrentadas enquanto ainda jovem alteram a vida adulta de Tom e como, futuramente, ele busca modificar essa realidade.

A história carrega um tom de romance, porém o foco não é exatamente este, se não sim a ideia de redenção que o Natal nos traz. O conteúdo vai para além do amor entre Tom e Laura, tomando proporções para se debater sobre o que significa família para cada um de nós e o quanto ela nos é verdadeiramente importante.

Entretanto, por debater pontos tão importantes, a história me deixou sedenta por mais. Sendo sucinta e elucidando poucos Natais — tendo até mesmo um salto muito longo entre um e outro ao final, o que me deixou querendo saber mais do desenrolar entre Tom e sua família — acabei achando que a parte após o ápice da história poderia ter sido mais trabalhada.

Ao fim, somente tenho a dizer que algumas pessoas podem achar o tema um tanto quanto clichê, porém como não escrever uma história dessa forma quando se trata do Natal e de passar a mensagem social e cultural que essa data carrega?

Taynah Lima fez, então, um bom trabalho no desenvolvimento de sua história, buscando tratar de um tema claro de forma consistente, com uma pitada de drama e romance. Parabéns pelo conto!

Segundo lugar: “Presente de Natal”, de Kaline Bogard
(Resenha por Luh Black)

Todo mundo cresceu ouvindo que ganharia presentes do Papai Noel se tivesse sido uma boa criança naquele ano, e isso sempre foi um fato alegre e esperançoso. Kaline Bogard conseguiu distorcer essa esperança em medo de forma adorável e intensa.

É véspera de Natal, e o significado pesado disso é presente na história desde o início. Os protagonistas, Red e Ares, dois jovens amigos de infância, carregam o peso daquele ser o último ano em que podem ou não receber o presente de Natal. A tensão sobre isso é explícita em toda a história, e demora um pouco até entendermos o porquê – mas assim que entendemos, uau.

A construção dos personagens é bem feita, mostrando o quanto são importantes um para o outro, e é fácil entender suas personalidades tanto quanto é fácil entender os costumes e a importância tensa do Natal para o povoado que ambienta a história. O que mais me chamou atenção, entretanto, foi o uso esperto que a autora fez das palavras. Até explicar qual o real significado do Natal para história, Kaline brinca com palavras leves e esperançosas, rodeando-as com uma aura escura. Nos faz pensar que o Natal ali não pode ser tão assustador – ou que é bem mais medonho do que imaginamos.

Quando Kaline explica porque o Natal é sim algo a ser temido, quando ela justifica a tensão e o medo que os protagonistas sentem, faz isso de modo magnífico. Aos olhos inocentes de Red, dá pra sentir seu medo, o desespero de que ele receba o presente de Natal, ou pior, que seu melhor amigo seja o escolhido. É fácil imaginá-lo encolhido em sua cama, esperando saber a resposta, esperando que aquela última noite de tensão finalmente termine – a narração da autora conseguiu passar para o leitor tudo o que o personagem estava sentindo. Não só nessa cena, mas durante toda a história, é fácil ficar tenso quando um de seus personagens está tenso, tanto quanto é fácil ficar aliviado.

A única parte da história que não consegui visualizar (ou ouvir?) foi a canção macabra que acompanha a chegada de Noel. Mas talvez essa tenha sido a intenção da autora – já que o próprio Red admitiu não saber que língua era aquela, talvez nós também não devêssemos conseguir imaginá-la de verdade. Ou então a canção ficou ali para que a imaginássemos no ritmo mais medonho que nossa consciência conseguisse. Numa fantasia de terror, tudo é possível.

A relação dos protagonistas é claramente algo que um dia vai virar mais do que amizade. A felicidade que os dois amigos sentem quando confirmam, finalmente, que poderão ter um futuro, é comovente – e egoísta, já que essa felicidade depende da tristeza de outros. Meio parecido com a nossa realidade, no final das contas.

Já recomendei essa leitura a alguns amigos, e vou continuar recomendando (menos para crianças, porque a história seria bem assustadora para elas). Essa foi, até agora, minha história de Natal preferida.
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Recomendações de Leitura Dia da Mulher [03/04]

sexta-feira, 25 de março de 2016

“Precisamos Falar Sobre Kevin”, Lionel Shriver
(Giulia Correia)

Antes de mais nada, gostaria de falar que esse livro é um livro polêmico. Ele conta a história de Kevin Khatchadourian, um daqueles adolescentes americanos que a gente vê na TV que vão para a escola com uma arma e atiram nos estudantes. Ao contrário do que se pode esperar, porém, não é ele quem conta a história: é a mãe dele, Eva Khatchadourian, por meio de cartas ao pai dele, Franklin.

Sim, a história toda é contada por cartas <3. Elas nos fazem entrar na cabeça da Eva e entendê-la enquanto ela própria tenta compreender o que levou seu filho a fazer isso ao mesmo tempo em que tem que, sozinha, arranjar uma maneira de lidar com a situação que foi jogada em seu colo e a culpa que a sociedade lança sobre ela por ser a mãe de um monstro.

Eva nos leva ao começo de tudo (quando começou a namorar com Franklin) e caminha conosco por toda a trajetória dela como mãe: o momento em que engravidou, o nascimento, a infância e a adolescência de Kevin, tudo isso para tentar responder a questões sobre culpa e responsabilidade, consciência e alienação.

A história por si só é maravilhosa, mas a caracterização da personagem e, mais importante, a imersão que você tem nela é muito rara de se achar. Tem momentos na história que um outro personagem joga a opinião dele sobre um determinado acontecimento e você fica genuinamente surpreso e, muitas vezes, tão ofendido quanto a Eva. Você acaba se apegando às opiniões dela sobre todo mundo e tudo o que acontece, quase como se ela estivesse certa sempre.

Talvez não seja o livro perfeito para se ler no dia da mulher, nem o livro que demonstra o feminino de forma lisonjeira, mas é um livro que retrata uma personagem tão completa e tão multifacetada que poderia até existir de verdade, e que merece ser lido e relido e, principalmente, refletido e discutido.

“A Menina que Roubava Livros”, Marcus Zuzak
(Rodrigo Caetano)

Um livro que encanta pela personagem e pelo narrador. Nele encontramos a história de uma menina durante a Segunda Guerra Mundial. Abandonada pela mãe judia durante a fuga, Liesel Meminger é adotada por uma família alemã. Com uma narrativa forte, conduzida pela própria figura da morte, o livro nos conta a vida de Liesel durante a Guerra, e nos apresenta uma visão diferente e uma nova perspectiva de um dos períodos mais sombrios da História da Humanidade. Tudo enquanto nos mostra o poder da palavra, dos livros, e como, muitas vezes, eles podem representar a esperança e a persistência, algo essencial para enfrentar desafios como aqueles. Um livro forte e que recomendo a qualquer um.

“Mansfield Park”, Jane Austen
(Enrique Buendía)

Livro da querida Jane Austen, a personagem principal de Mansfield Park não é aquilo que se pode chamar de mulher bem resolvida, acredito até que a Fanny esteja muito mais próxima da Macabea do que da Tereza, mas, enfim, o que eu achei interessante nessa história é que, diferente de clássicos que costumam ser repletos de personagens masculinos, o livro traz várias mulheres e todas diferentes entre si, tem tia mesquinha, tem tia tranquila, tem sobrinha apática, tem filhas que aprontam, adultério por parte de uma mulher casada, outra mulher mais esperta e interessada no dinheiro. Mansfield é uma residência que traz várias mulheres, Fanny é um pedaço delas, a principal, mas torna-se muito interessante ver todos os componentes agindo juntos, principalmente as mulheres.

Saga “Divergente”, Veronica Roth
(Pedro)

Essa saga é uma daquelas que ajudam a quebrar paradigmas. Resolvi indicá-la devido à personagem principal, Tris.

Há uma questão, bastante metafórica, no primeiro livro da série que é bastante interessante: a personagem se vê dividida entre seguir um caminho que lhe agrada e um caminho que lhe é esperado. Ela pondera sobre o eventual desgosto de sua família, dependendo de sua escolha.

É um livro que traz nuances sobre questões importantes, como a liberdade de escolha. E como toda boa distopia, é recheado de críticas discretas à sociedade e aos moldes sociais que ela possui.

“Se Houver Amanhã”, Sidney Sheldon
(Enrique Buendía)

Os livros do Sidney Sheldon sempre trazem mulheres incríveis e inesquecíveis, sagazes, inteligentes, dominantes, poderia recomendar vários livros dele, principalmente “O reverso da medalha”, que traz uma das personagens femininas mais impressionantes que eu já vi, mas “Se Houver Amanhã” retrata não só o poder de uma mulher, mas também a vida simples que ela levava, a humilhação sofrida e amostras do sistema presidiário estado-unidense, como OITNB. Tracy é uma personagem determinada que vai atrás e faz coisas inimagináveis.

“A Guardiã da Minha Irmã”, Jodi Picoult
(Rodrigo Caetano)

Retratando um caso fictício, porém imensamente interessante, esse livro apresenta diversos questionamentos éticos e morais sobre a doença e a família. Com uma filha diagnosticada com leucemia, um casal procura fazer uma inseminação artifícial, para gerar uma criança geneticamente compatível com a primeira, de modo que possa lhe servir de doadora. Porém, a nova criança, uma menina, quando completa dez anos, procura um advogado para defender o seu direito de não doar sangue ou material biológico para a irmã doente, se preciso impondo aos pais a perda de sua guarda. A trama gira em torno de como a família é construída e desconstruída, e como cada um dos membros lida com os desafios da doença, enquanto tentam permanecer unidos e provar o seu amor um pelo outro.

Trilogia “Sevenwaters”, Juliet Marillier
(Elyon Somniare)

Escolher entre os livros da Juliet Marillier revelou-se um desafio, pois as razões que tenho para recomendar esta trilogia são bastante gerais a todas as suas obras. Com um ou duas excepções, Marillier segue uma narrativa centrada na mulher e na primeira pessoa. Misturando o romance com o fantástico, dá a conhecer ao leitor os momentos mais cruciais das suas personagens, perfazendo um arco estrutural em que é possível ver o avançar da história (nada no final é como no início) e o crescimento das personagens. Usualmente cada livro seu é centrado numa mulher diferente, e esta trilogia não é diferente. Em cada um dos seus títulos temos uma mulher única, com uma história única, mas com duas características em comum: à sua maneira, são todas mulheres fortes e complexas (pois nem sempre a mulher forte tem de ser a badass que faz girar um machado. Nada contra, gosto, mas gosto ainda mais de ver a diversificação na representação da personagem feminina), e todas merecem os finais respectivos: tudo o que alcançam é devido a elas, às suas escolhas por aquilo que é verdadeiro a elas mesmas, aos seus princípios e aos seus sentimentos, bem como à sua resiliência para ultrapassar as dificuldades que lhes são colocadas.

Optei por esta trilogia (agora saga) por ser tanto a que tornou a autora famosa, como aquela que me deu a conhecer Marillier (tem um spot duradoiro nas minhas recomendações), mas realmente não me parece que alguém fique defraudado por começar por qualquer outro livro da autora.
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Resenha: Perdido em Marte

segunda-feira, 21 de março de 2016

Por: Rodrigo Caetano

E aí, galera, tudo bem? Hoje vim aqui falar de um livro que me surpreendeu muito, e positivamente. “Perdido em Marte” foi o livro que mais gostei de ler em 2015, e olha que li alguns que realmente gostei.

Porém, eu tenho um motivo especial para trazer essa resenha para vocês, que vai além do quão especial esse livro é ou do quão legal ficou a sua adaptação para o cinema (nomeado para nada mais nada menos do que 7 Oscars). Essa razão é o autor.

Andy Weir era um programador de computador formado na década de 90 que cresceu lendo ficção científica. Como muitos aqui, ele também gostava muito de escrever, mas tinha medo de perseguir a carreira. A instabilidade o assustava, e ele gostava de seu outro trabalho, que lhe permitia viver bem, mesmo que sem luxos. Isso acabou fazendo com que a escrita ficasse em segundo plano, como um hobby.

Para manter esse hobby, ele criou um blog, onde ele escrevia sobre várias coisas. Não apenas ficção, mas sobre assuntos de seu interesse, como ciência e programação. As histórias que ele escrevia por diversão eram apenas uma das coisas postadas lá. Foi então que ele começou a escrever e postar, capítulo a capítulo, a história de Mark Watney. Como todos nós, ele se demorava, e tinha de lidar com os leitores (no começo, não muitos) pedindo atualizações e reclamando das demoras.

Apenas anos depois de começar, Andy finalmente conseguiu escrever o último capítulo, e, enquanto isso, a história ia ganhando popularidade. Logo os leitores começaram a pedir para que ele facilitasse a leitura. Não queriam mais acessar o blog, queria poder ler em seus e-readers. Andy, então, disponibilizou gratuitamente o arquivo inteiro para download.

Porém, graças a alguns problemas de compatibilidade do arquivo com alguns leitores digitais populares (como o Kindle), Andy sofria com inúmeros pedidos para resolver o problema. Foi aí que ele resolveu postar o livro na loja virtual da Amazon, pelo preço mínimo que a loja permite: U$ 0,99 (Andy diz que gostaria de ter colocado gratuitamente, como no blog, mas a loja o obrigava a cobrar esse valor).

Aqui, gostaria de abrir um parêntese nessa história: quantos de vocês já reclamaram de seus leitores por diversos motivos? Porque o Andy, com certeza, reclamou. Depois de anos escrevendo, a galera o perturbava para criar um arquivo único, muitos por preguiça de entrar no site. Depois, ele teve o trabalho de compilar e disponibilizar o arquivo gratuitamente no blog, e a galera ainda não ficou satisfeita. Eles não queriam converter o arquivo para seus respectivos e-readers (existem locais na internet que você consegue fazer essa conversão gratuitamente em questão de minutos). O cara teve de aprender a lidar com a Amazon para conseguir atender o gosto dos leitores “preguiçosos”...

Só que, aí, o livro estourou. Foi lançar na Amazon que, sem explicação, as pessoas preferiam pagar 1 dólar do que baixar de graça no site dele (o arquivo continuava disponível, igualzinho). E a popularidade subiu tanto que ele chegou no Top 10 de ficção cientifica do site inteiro. O resto, é história. Ele assinou contrato com a editora e com a empresa para fazer o filme, tudo na mesma semana, e, em um ano, tudo já tinha sido preparado. Livro nas prateleiras, filme em processo de produção, e a vida inteira dele de cabeça para baixo.

Eu não sei vocês, mas a história do Andy me faz sorrir. Não apenas por ele e por ele ter realizado um sonho. Ela me dá esperanças. Não existe diferença nenhuma entre uma fanfic original e o que Andy Weir escreveu. Ele só postou no seu próprio blog, e nós postamos no Nyah! Andy é um de nós, que conseguiu o que sonhamos ter. O fato de a história que ele escreveu ser incrível é só a cereja do bolo.

Título Original: The Martian
Título Brasileiro: Perdido em Marte
Autor: Andy Weir
Editora: Arqueiro
Tradução: Fernanda Abreu

Sinopse: Há seis dias, o astronauta Mark Watney se tornou a décima sétima pessoa a pisar em Marte. E, provavelmente, será a primeira a morrer no planeta vermelho. Depois de uma forte tempestade de areia, a missão Ares 3 é abortada e a tripulação vai embora, certa de que Mark morreu em um terrível acidente. Ao despertar, ele se vê completamente sozinho, ferido e sem ter como avisar às pessoas na Terra que está vivo. E, mesmo que conseguisse se comunicar, seus mantimentos terminariam anos antes da chegada de um possível resgate.

Ainda assim, Mark não está disposto a desistir. Munido de nada além de curiosidade e de suas habilidades de engenheiro e botânico — e um senso de humor inabalável —, ele embarca numa luta obstinada pela sobrevivência. Para isso, será o primeiro homem a plantar batatas em Marte e, usando uma genial mistura de cálculos e fita adesiva, vai elaborar um plano para entrar em contato com a Nasa e, quem sabe, sair vivo de lá.

Com um forte embasamento científico real e moderno, “Perdido em Marte” é um suspense memorável e divertido, impulsionado por uma trama que não para de surpreender o leitor.

Resenha:
Definitivamente um dos livros mais divertidos e interessantes que eu já li. “Perdido em Marte” é uma leitura rápida, com uma história simples e, ao mesmo tempo, terrivelmente complexa, capaz de te fazer rir e tremer ao mesmo tempo, com uma simples mudança de parágrafo. E Mark Watney é um dos protagonistas mais carismáticos que já conheci. Uma personalidade magnética, de uma pessoa extremamente inteligente e divertida.

Em um ritmo acelerado, com alternâncias narrativas e um senso de humor impecável, Mark alcança umas das maiores façanhas da história da humanidade sendo nada mais do que um homem comum, de boa formação e treinamento. É fácil de se identificar e de se relacionar com um personagem tão simples, o que faz dessa leitura — praticamente um relato de seu isolamento — algo muito mais prazeroso do que o esperado.

Sim, existem explicações cientificas o tempo todo, e talvez você tenha dificuldades para absorver ou compreender totalmente algumas delas, mas a linguagem e o as artimanhas do autor fazem com que tudo fique razoavelmente compreensível, principalmente para uma pessoa com boa formação do ensino médio. E me sinto seguro ao falar isso por saber que toda minha base de conhecimento científico veio de lá. Vou até além: se você ainda estiver no ensino médio, mergulhe fundo nesse livro. Procure entender as explicações científicas com detalhes e pergunte aos seus professores. O livro pode te ajudar a entender conceitos complexo e difíceis com muito mais facilidade do que uma aula qualquer.

Apesar de ter gostado muito, encontrei uma série de defeitos no livro, que, na verdade, pouco prejudicaram no que senti ao lê-lo. Vou me explicar: em alguns momentos, sinto que faltou ao autor de primeira viagem uma experiência em construir ou desconstruir expectativa, ou de revelar ou não revelar certas informações, que poderiam ter potencializado os momentos de mistério e tensão. De certa forma, também uma falha do editor, já que são pontos que podem ser indicados na revisão e preparação para publicação.

Em alguns pontos, também achei que as formas narrativas (uma constante alternância entre diários de bordo, narrações em terceira pessoa da Terra, narrações em terceira pessoa da Nave espacial e narrações em terceira pessoa mais distante) ficaram mal organizadas e poderiam ter sido justapostas de maneira mais eficiente, para fazer com que a transição ficasse mais fácil, ou, em alguns momentos, para aumentar a tensão e a expectativa. Se você se interessa por organização textual, vale a pena ler o livro prestando atenção nesses aspectos e aprender um pouco com seus erros.

Por último, pessoalmente gosto de finais que se desenrolem um pouco após o clímax. E fiquei um pouco decepcionado ao ver o livro terminar imediatamente após a resolução da trama principal. Para mim, cabia um último capítulo curto de fechamento, até para terminar de amarrar todos os laços secundários e menos centrais da trama.

Porém, isso não me impede de reafirmar que foi um dos livros mais interessantes e divertidos que já li. Além disso, ao saber da história de publicação independente que contei lá em cima, e considerando que Andy é um autor de primeira viagem, consigo compreender melhor como algumas dificuldades editoriais possam ter causado alguns dos problemas que apontei. Afinal, o editor teve de correr para editar e preparar o livro para postagem, enquanto muitos já tinham tido acesso a uma certa organização pessoal do autor na Amazon e o roteiro do filme era preparado.

No geral, é um livro que recomendo fortemente, e a qualquer pessoa, de qualquer idade. Leiam o livro (de preferência, antes de ver o filme). Vale muito a pena.
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Recomendações de Leitura Dia da Mulher [02/04]

quinta-feira, 17 de março de 2016

“As Brumas de Avalon”, Marion Zimmer Bradley
(Rodrigo Caetano)

Publicada entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, essa saga de livros conta a história do Rei Arthur durante 70 anos ou mais, antes e depois de seu nascimento. Seu foco, contudo, está nas mulheres que cercaram esse rei mitológico, incluindo a sua irmã, Morgana.Assim, a autora vai preenchendo as lacunas que foram deixadas por causa do paganismo e do machismo histórico da Bretanha. Além disso, o livro ainda aborda de maneira superficial algumas questões relacionadas a homossexualidade, tanto masculina quanto feminina. É uma narrativa poderosa, principalmente do ponto de vista das mulheres – Morgana em especial –, de um dos mitos mais conhecidos da Humanidade.

“Lueji, O Nascimento de um Império”, Pepetela
(Enrique Buendía)

Lueji narra a história de duas mulheres: uma é Lueji, a filha de um rei lunda, uma tribo africana na atual Angola, da qual se contam várias lendas, a outra é Lu, uma dançarina que desiste, que tenta conciliar a dança com a sua faculdade, e, bem, o livro vai narrando a histórias das duas simultaneamente: uma se passa na Angola antes de sua colonização, outra na atual Angola, e o mais interessante é o que tudo resulta no final. O narrador do livro é um homem, aparentemente o próprio Pepetela, e o que é interessante é que o livro traz o português angolano, traz a cultura de um país que fala a mesma língua falada no Brasil e em Portugal, traz tenções e sobrevivências de hábitos culturais, como reflexos de guerras entre as etnias, e também a história do nascimento de Lunda com toda a sua tradição, algo puxado para o início de Angola.

“A menina que circum-navegou o reino encantado no barco que ela mesma fez”, Catherynne M. Valente
(Giulia Correia)

Não vou enganar ninguém: admito que só peguei o livro porque tinha uma recomendação de Neil Gaiman na capa e não estava nada caro (na verdade, foi na bienal do rio, estava 10 reais). Ainda assim, quando li o livro, me surpreendi imensamente. Portanto, não se deixe enganar pela aparente infantilidade da história ou de como tudo soa, o livro é daqueles que você consegue tirar enormes interpretações de cada linha, e eu não faço ideia de como ele não é famoso.

Para começar, a protagonista é uma criança que não parece criança. Ela é inteligente e decidida. Depois, temos toda a parte de ser escolhida vs. ter se escolhido, o que vejo como uma crítica a histórias de fantasia em que a única característica boa do herói é ter uma profecia sobre seu destino e, ainda, temos um plot twist que vai te surpreender.

É um livro que deixou a feminista em mim bem feliz, por algum motivo. Talvez porque o livro está repleto de personagens femininas ótimas, desde a protagonista a personagens secundários. Temos, também, toda uma ambientação de um mundo mágico, com seres mágicos, dragões e paradoxos. Eu sou apaixonada por ele.

Se você gosta de livros tipo Alice, ou se curte histórias de Neil Gaiman, esse livro é pra você. Leia, releia, e venha conversar comigo <3

“Tieta do Agreste”, Jorge Amado
(Enrique Buendía)

Bem, Tieta é uma das personagens fictícias de Jorge Amado que mais me chamou a atenção, pela sua altivez, pela sua coragem, determinação, pela sua forma de vida, por aquilo foi capaz de fazer. Não dá pra falar muitas coisas sem acabar detalhando coisas do livro, mas Tieta é uma mulher que é expulsa de casa pelo pai e volta rica e poderosa para a sua cidade, ainda que não se saiba como ela tenha ficado rica. Altiva, ela vai, luta pelo que almeja em uma cidade que desconhece o progresso, procura resistir a preconceitos e dá um show.

“A Breve Segunda Vida de Bree Tanner”, Stephenie Meyer
(Rodrigo Caetano)

Uma história paralela à saga Crepúsculo, esse livro curto é uma das narrativas mais poderosas de Stephenie Meyer, retratando o verdadeiro mundo clandestino em que os vampiros de sua saga se escondem, explorando um espaço que a saga principal não lhe propiciou explorar. Com uma forte personagem feminina, vemos um conto que, apesar de curto, consegue ser tão poderoso quanto qualquer outro livro da série em que está inserido. Mais do que isso, o livro dá vida ao mundo criado pela autora na saga principal, e dá a ele uma profundidade muito maior.

“O Diário de Anne Frank”, Anne Frank
(Pedro)

Na literatura, por mais que haja uma história envolvente e com enredo impecável, sempre vai haver uma tênue cortina de fumaça que a separa da realidade; o limiar entre a ficção e a realidade. Esse não é o caso, feliz ou infelizmente, dessa obra.

Anne Frank é alguém que realmente existiu e o motivo da indicação é exatamente esse. Além do nazismo e da perseguição aos judeus, é possível observar como era a vida das mulheres e sua atribuição social da década de 40. É um livro que traz um relato histórico de uma das épocas mais sangrentas da Humanidade, sob a perspectiva de uma jovem com ideologias pares às que temos hoje. Em outras palavras: é um livro emocionante e rico.

“O Labirinto”, Kate Moss
(Dark Lace)

“A história se passa em duas linhas de tempo retratando a vida da mesma mulher e os caminhos que ela percorreu para lutar contra os mesmos problemas. Retrata a rotina da mulher moderna e a do medievo, suas provações e dificuldades, contrastando a forma como conseguiu encontrar as soluções. Um livro sobre a força e a coragem que uma teve que ter, para não ser esmagada num mundo masculino.”

“Trilogia Millenium”, Stieg Larsson
(Rodrigo Caetano)

Uma trilogia de um autor sueco comportando os títulos “O homem que não amava as mulheres”, “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”. Essa saga tem como protagonistas um jornalista chamado Mikael Blomkvist e uma jovem hacker chamada Lisbeth Salander. Outra personagem feminina extremamente forte e complexa, Lisbeth rouba a cena e conduz o fio narrativo dos três livros de maneira surpreendente. Quando você vê, descobre que a história sempre foi sobre ela. Apesar de não ser uma protagonista clássica, muitas vezes agindo como anti-heroína, ela chama atenção por sua ousadia, autenticidade e por seu modo único de ver e viver a vida.

Recentemente um quarto livro foi lançado, incluído na saga, porém o livro foi escrito por outro autor, uma vez que Stieg Larsson faleceu pouco antes da publicação do último volume da então trilogia.
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Alicerces de Enredo: As Estruturas Mais Comummente Usadas [3/3]

segunda-feira, 14 de março de 2016

Por: Elyon Somniare

Boas, juventude!

Eis-nos aqui reunidos para a terceira e última (Ufa!) parte das estruturas mais comuns que encontramos nas histórias desta vida. Se não leram as duas anteriores, não é essencial lerem a segunda (embora fosse engraçadito), mas convinha passarem os olhos pela primeira: é uma introdução importante que não irei resumir pelo facto de este artigo só por si já ser beeeem longo. E não gostaríamos de o prolongar ainda mais, não é?

Mas avante, camaradas! No artigo anterior vimos dez das estruturas mais comuns, e para nos mantermos dentro do planeado, temos mais dez pela frente:

11) Metamorfose

Esta é uma favorita pessoal minha. Aborda a mudança, tanto física como psicológica. São exemplos deste tipo “A Bela e o Monstro”, “Drácula” e “Metamorfose”. Usualmente há uma maldição e uma saída, a qual é com frequência a “cura” da maldição através do amor (de qualquer tipo, e não apenas romântico, cara-metade e afins).

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: No primeiro acto conhecemos o amaldiçoado, mas não as razões da maldição (eis a pitada de suspense!). E quem mais? O antagonista, claro, que aqui raramente coincide com o vilão. Pelo contrário, o antagonista neste tipo de enredo surge como o cataclismo que reverterá a maldição: o escolhido. Pode não saber que o é, e frequentemente é uma vítima (vide, a Bela de “A Bela e o Monstro”). É costumeiro o antagonista sentir uma repulsa inicial, mas não incomum ceder ao feitiço da metamorfose. A sensação que se transmite é que o antagonista é directa ou indirectamente cativo do metamorfo, que, a adicionar a isto, não pode explicar a sua situação de amaldiçoado. Um fervilhar de possibilidades para mal-entendidos, portanto.

Acto 2: Centra-se na relação entre o metamorfo e o antagonista.Este último torna-se menos severo em relação ao metamorfo, mas ganha também poder sobre ele. A haver amor, é aqui que ele começa, assim como a possibilidade de quebrar a maldição. A repulsa inicial vai, portanto, desaparecendo.

Acto 3: Os termos que regem o quebrar da maldição atingem o ponto crítico. Usualmente há um incidente que serve de cataclismo final, e a maldição e suas causas são, por fim, explicadas.

12) Transformação

Enquanto na Metamorfose temos uma mudança literal, aqui a mudança é “apenas” interior. O enredo acompanha o protagonista durante um período de mudança significativa, examinando o processo da vida e o seu efeito na pessoa.

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: É neste acto que figura o incidente transformador que leva à crise, ou seja, é onde começa o processo de mudança.

Acto 2: Explora os efeitos da transformação, o que na maioria dos casos implica uma auto-examinação.

Acto 3: É a altura do incidente clarificador, que representa a fase final da transformação. A personagem compreender a verdadeira natureza da sua experiência e como isso a afectou. O ganho de uma maior sapiência costuma ser acompanhada por uma maior tristeza. (Porquê? Porque somos uns tristes.)

13) Maturação

É um dos enredos mais positivos, abordando o tema do crescimento. Sou incapaz de olhar para ele sem me lembrar de “Inside Out” <3 (Está tudo proibido de falar mal desse filme!). Ao longo do crescimento, há lições a aprender que podem ser difíceis, mas que no final tornam a personagem numa pessoa melhor. Difere da Transformação porque aborda uma mudança que acontece durante a passagem de criança para adulto, em vez de se centrar em adultos em processo de mudança.

Em vez de apresentar a estrutura em actos, irei deixar alguns dicas a ter em consideração da elaboração deste tipo de enredo:

♦ O protagonista encontra-se na iminência de se tornar adulto, tendo os objectivos confusos ou ainda não muito claros. O leitor deve conhecê-lo bem e saber como ele se sente e pensa antes de a acção começar.

♦ A vida inocente, algo naïve, do protagonista deve ser contrastada com a realidade.

♦ A histórica foca-se no crescimento moral e psicológico da personagem.

♦ Como já vimos em estruturas anteriores, também aqui é necessário um incidente que abale as crenças do protagonista e os seus entendimentos sobre como funciona o mundo. Não precisa ser algo rebuscado, pelo contrário. No já referido filme “Inside Out”, este incidente foi algo bem mundano: a mudança de cidade.

♦ A personagem aceita ou rejeita a mudança? Acaba por rejeitar primeiro e aceitar depois? Ou vice-versa? Estas questões devem ser ponderadas, pois delas vai depender muito o rumo da história.

♦ O processo de mudança deve ser demonstrado ao leitor, não esquecendo também que este é um processo gradual: tal é necessário para a verosimilhança. O leitor não irá confiar se a mudança for brusca e demasiado rápida porque, na realidade, isso não acontece. Assim, é aconselhável que seja feito através de pequenas lições.

♦ Não se esqueçam que estão a caracterizar uma criança, não um adulto em corpo de criança!
Para terminar a história, terão de decidir qual o preço psicológico da lição, e como lhe reage a personagem.
14) Amor

Chegou o Cupido! Sendo do tipo de enredo mais frequente, existem, naturalmente, vários tipos. A estrutura mais comum é, no entanto, a dos amantes que se encontram e são separados (oh, crueldade) e, por isso, será o aqui abordado.

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Os protagonistas são apresentados ao leitor (e por vezes um ao outro), começando e estabelecendo a sua relação. No final desta fase estão apaixonados (theyfondlove!), mas algo acontece que os separa.

Acto 2: Os amantes separam-se. Pelo menos um deles tenta reaproximar-se do outro, o qual ou espera pacientemente, ou rejeita as tentativas de aproximação. Pode haver uma luta com um antagonista.

Acto 3: Os amantes reúnem-se, devido ao amante activo, que encontra um modo de ultrapassar todos os obstáculos. E não podem ser os dois activos e fazer isso? Podem. O que interessa é que o amor foi testado e é agora maior e melhor.

Algumas dicas extra:

♦ Clichés não são necessariamente maus, mas é aconselhável que se evite o óbvio.

♦ O amor não acontece com facilidade. Sério. O leitor está cada vez menos disposto a suspender a crença para amor de bater o olho e tcharan!

♦ Não tem de ter um final feliz. (Boas notícias para quem gosta de angst, más notícias para quem gosta de fluffy.)

♦ As emoções das personagens são um ponto-chave, então é aconselhável que sejam beeem trabalhadas.

15) Amor Proibido

É todo aquele que vai contra as convenções duma sociedade, e, por isso, temos uma força implícita ou explícita a ir contra os amantes. São exemplos romances que se centram em adultério (“Anna Karenina”), incesto (“Os Maias”), homossexualidade (“Um Toque de Veludo”), diferença de idades, etc.

Como posso estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Define as personagens, a sua relação, e o contexto social onde se inserem. Que tabus são quebrados? Como lhes reagem as personagens e aqueles à sua volta?

Acto 2: A relação é posta à prova e ou começa a dissolver-se, ou fica sob grande pressão para o fazer.

Acto 3: Retrata a fase final da relação, onde usualmente os amantes são separados (por morte, por deserção, ou à força). Não é, contudo, obrigatório que o sejam, podendo continuar com uma relação secreta, fugir juntos… Apenas não é o mais comum e, ao fazê-lo, convém que o final seja credível.

16) Sacrifício

Assim como em enredos anterior, também este foca em uma transformação do protagonista, contudo, o foco encontra-se nos sacrifícios feitos ao longo do caminho, tendo um forte dilema moral como o centro da história.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ O sacrifício vem a um grande custo pessoal, físico ou psicológico. O protagonista deve percorrer uma transformação importante para um estado moral mais alto que o possuído.

♦ Os eventos devem forçar a decisão do protagonista. Todos eles devem ser um reflexo do protagonista, testando-o e desenvolvendo-o.

♦ O protagonista deve estar bem construído, de modo a que o leitor compreenda o seu progresso ao fazer o caminho do sacrifício. As motivações devem, também, estar claras.

♦ A linha de acção equivale à linha de pensamento do protagonista.

17) Descoberta

O foco e o interesse estão mais na personagem a fazer a descoberta que na descoberta em si. Começa demonstrando quem é a personagem antes de as circunstâncias mudarem a forçarem em novas situações. Passado, presente e futuro são cruzados para alcançar isto, mas atenção para não se exagerar.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ O cataclismo que força a mudança de equilíbrio para desiquilíbrio não pode ser trivial, mas algo importante para a personagem e interessante para o leitor.

♦ A proporção é essencial! A emoção e a acção devem ser balanceadas, e convém evitar melodrama.

♦ Coloco particular ênfase aqui, porque detesto quando o autor faz isto: não forçar ou doutrinar mensagens através da personagem. Deixem que sejam as acções da personagens, ou os eventos, a falar.

18) Excesso Infeliz

Geralmente é sobre o declínio psicológico duma personagem, o qual deverá ser baseado numa falha de carácter da dita personagem.

Como posso estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Como é a personagem antes dos eventos a começarem a mudar.

Acto 2: Como é a personagem à medida que ela gradualmente se deteriora.

Acto 3: O que acontece depois de os eventos alcançarem o ponto crítico, forçando a personagem a ceder completamente à sua falha (no caso de tragédia) ou a recuperar dela.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ Desenvolver a personagem não como um lunático, mas como alguém cujo declínio evoque simpatia, até mesmo empatia. O seu desenvolvimento é particularmente importante, pois o leitor tem de sentir a personagem como real. É aconselhável que se evite melodrama e que não se force mais sentimento do que aquele que o episódio pode abarcar.

♦ Não esconder informação que leve à simpatia do leitor pela personagem. Pelo mesmo motivo, não colocar a personagem a cometer crimes sem que haja uma grande compreensão de quem ou o que a personagem é. No ponto crítico ela deve mover-se ou para a redenção, ou para a total destruição, não permanecendo no limbo: o leitor não costuma gostar de final em aberto e não encara tal situação lá muito bem.

♦ A acção deve estar sempre ligada à personagem: os eventos acontecem porque ela faz ou não faz certas coisas.

♦ Sejam realistas. Pesquisem para saber e compreender a natureza do excesso que caracteriza a vossa personagem, não caindo na facilidade de desculpar com “loucura”.

19 e 20) Ascensão e Queda

Duas faces de uma mesma moeda, os nomes destes tipos de enredo são já auto-explicativos. O foco tende a ser numa única personagem (o protagonista), a qual deve ter força de vontade, ser carismática e aparentemente única. Todas as outras personagens revolvem à volta desta. Também aqui o enredo se centra num dilema moral, que testa a personagem e é a origem do cataclismo de mudança.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ A personagem e os eventos são próximos: tudo o que acontece é por causa da personagem.

♦ É uma mais-valia tentar mostrar a personagem como ela era antes do acontecimento de maior mudança, de modo a que haja uma comparação. Mostrem a mudança progressiva da personagem como resultado dos eventos. Se é uma história sobre uma personagem que ultrapassa circunstâncias horríveis, mostrem a sua natureza ainda nessa fase. Mostrem como a personagem foi de uma fase para outra sem saltar entre elas.

♦ As razões da queda devem existir, não sendo a dita queda um mero acaso. Ao longo do enredo, podem tentar pequenas/médias ascensões e queda, não fazendo apenas uma só grande ascensão e queda. Procurem variar as circunstâncias de vida da personagem e a intensidade dos eventos (com certeza não têm todos o mesmo peso na vida da personagem).

Respiremos fundo. Porque chegamos ao fim e, não sei quanto a vocês, mas eu estou exausta. Com certeza notaram que muitas dicas e sugestões cruzam os vários tipos de enredos abordados, o que só demonstra que algumas coisas são comuns aos enredos em geral. E, mais um vez, isto não se trata de regras, mas de ajudas.

Espero que estes artigos vos facilitem a hora de planear e escrever as vossas histórias!

Até uma próxima.


REFERÊNCIAS:
TOBIAS, Ronald B. - “Twenty Master PlotsandHowto Build Them”, [s.l.], Piatkus Books, 1999
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Recomendações de Leitura Dia da Mulher [01/04]

terça-feira, 8 de março de 2016


Saudações, jovens pinguinzinhos! 

Quem vos fala escreve nesta introdução é a Elyon Somniare, e não me irei alongar muito. Sabem que dia é hoje? Oito de Março, Dia da Mulher, e se não sabem a razão, aconselho a procurarem no Google, porque é algo sempre bom de se saber. Mas mais do que a razão histórica para dar importância à data, temos a razão social que ainda hoje, infelizmente, justifica a importância deste dia. Não, não nos iremos alongar sobre isso, não só porque daria pano para mangas, como também por não ser esse o foco do blog. A Liga, contudo, não quis deixar passar a data em branco, e por que não lançar algumas recomendações de leitura durante este mês? Com isso em mente, fizemos um apelo aos nossos betas, que prontamente lhe responderam. Serão quatro posts extra a saírem durante este mês Março, três com recomendações de livros, um com recomendações de fics no Nyah! (e uma surpresa que saberão na altura, ahah).

Antes de continuarem, contudo, peço que tenham atenção a duas coisas: as recomendações são variadas e destinadas a várias idades e gostos. Então, ao pensar “Como assim, colocaram livro X ao nível de livro Y, como pode!?” lembrem-se que o livro X pode não ser eeeeessa coisa para vocês, mas que o será para alguém de uma idade diversa, de uma experiência de vida diversa, de um gosto literário diverso, etc. A segunda coisa é que todos os betas que deram recomendações responderam ao apelo. Não houve nenhum beta que respondeu e foi ignorado, therefore, gostaria de não os ver a serem desmerecidos por conta da sua sugestão que vai contra o vosso gosto ou opinião ou pelo seu género, ok? Obrigada ;) 

“Jogos Vorazes”, Suzanne Collins
(Rodrigo Caetano)

Não apenas um, mas três livros contando a história de uma das personagens femininas mais marcantes dos últimos tempos, a saga de Jogos Vorazes nos apresenta a Katniss Everdeen, uma adolescente forçada a agir como adulta pela dura realidade que assola o mundo em que vive. Escolhida como símbolo de uma revolução de proporções maiores do que ela poderia imaginar, essa história é sobre uma mulher e não sobre o ícone que se constrói a sua volta, e isso faz com que ela seja uma das personagens femininas favoritas dos jovens nos últimos tempos. Isso e o fato de ela ser (insira aqui um palavrão que sirva para exaltá-la), além de ter os dois homens de sua vida babando por ela.

“Tereza Batista Cansada de Guerra”, Jorge Amado
(Enrique Buendía)

Eu sempre choro ao ler um livro do Jorge Amado, mas Tereza... foi um dos que mais conseguiu me arrancar lágrimas; Tereza é uma mulher que conhece a fama e a miséria, foi prostituta (liderou uma luta ao lado de prostituas, inclusive), foi vendida quando era uma adolescente, matou um homem com a faca da cozinha, não suportava ver homem batendo em mulher, enfim, uma mulher incrível. Acho que ela é a mais completa do Jorge Amado porque ela consegue reunir aquilo que as demais possuem e, assim, se sobressai, lutando por aquilo que quer, destemida, umbandista, guerreira, enfim, acho que é uma grande mulher pra ser homenageada no dia 8 de março.

“Chocolate”, Joanne Harris
(Ana Luísa Coelho)

"Chocolate" é um livro maravilhosamente doce da Joanne Harris. Toda a gente conhece o filme, ou já ouviu falar dele, porque tem o Johnny Depp no meio do elenco. Tendo lido apenas o livro, nem vos sei dizer qual personagem ele deveria interpretar porque, apesar de haver vários homens importantes em momentos diferentes, nenhum rouba o foco à protagonista e à sua filha, nunca. Este é um livro verdadeiramente próximo do que é ser-se mulher, e quem comentar que é por ter a ver com chocolate e comida e cozinha vai apanhar! Ficamos a conhecer uma mulher e a sua filha, o amor que as une, a sua forma de viver e o que trazem ao mundo por serem como são. O chocolate surge num contexto delicioso e com descrições tão vívidas que o leitor se sente na loja de chocolates da protagonista a toda a hora. É um livro com mulheres, sobre mulheres, mas para qualquer pesaoa de qualquer género. A história é simples, mas bem descrita, e tem pontos fortes que se ligam bem à realidade de qualquer pessoa, mesmo, para os notar e reavaliar, que a pessoa tenha ainda de matutar sobre o livro por alguns dias. Esses dois dias serão dias felizes. Adorei devorá-lo. É raro encontrarmos livros com protagonistas femininas que sejam sobre a vida delas, e como ela é boa através dos seus esforços e ideias, e não sobre como a vida delas melhora com algum par romântico. Romance não entra sequer na equação e garanto que ninguém, nem os românticos fervorosos como eu, lhe sentirão a falta. Recomendo muito este livro. Espero que também gostem dele.

“A Hora da Estrela”, Clarice Lispector
(Enrique Buendía)

O último da Clarice, conhecido pela sua personagem Macabea, uma mulher que, confesso, me deixou muito chocado, Macabea é uma nordestina que vai para o Rio depois da morte de sua única parente, uma tia, mas ela mal tem consciência de existir, vive apenas a sua vida pacata e sem ambições, ingênua e desamparada, uma mulher que “ninguém a quer” e que “não faz falta a ninguém”. A história narrada também é muito crua, com aquele intimismo da Clarice, mas não tão forte, e com uma jogada que vale a pena ser mencionada, a autora cria um narrador homem porque “escritora mulher pode lacrimejar piegas”, ou seja, sendo ela uma escritora mulher, faz todo um jogo irônico com a imagem de que a mulher, por descrever uma história triste, chora. Com a revelação de uma cartomante de que teria um futuro brilhante, Macabea tem a sua hora da estrela bem mais cedo e de forma surpreendente, algo que nos faz parar para pensar.

“Memórias de uma Gueixa”, Arthur Golden
(Dark Lace)

A história mostra a adaptabilidade feminina e sua flexibilidade numa cultura e época em que elas deveriam ser o que os homens esperavam delas. Entre a tradição e a guerra, o livro retrata o espírito feminino, sensível mas forte.

“O Fantasma”, Daniele Steel
(Dark Lace)

A história conta a trajetória de uma mulher que sofria a opressão masculina social e até violências, mas que apesar disso nunca perdeu a esperança de ser feliz. Outro livro que retrata a força e flexibilidade do espírito feminino, a coragem e o pioneirismo de uma mulher em uma época em que ela seria nada diferente de um objeto da casa.

“Orgulho e Preconceito”, Jane Austen
(Giulia Correia)

A fama do livro o precede: de todos os livros da Jane Austen, eu diria que é o mais famoso, o mais comentado, aquele com mais adaptações. Fala por si, não? Que um dos maiores nomes da literatura seja uma mulher e, mais, que ela tenha escrito seus livros e não se casado numa época em que se esperava que as mulheres fizessem o contrário me faz acreditar que não podia faltar um livro dela numa recomendação sobre o dia da mulher.

Acredito eu que a história, per se, a maioria das pessoas conheça, então não vou focar a recomendação nisso. Além disso, basta jogar no google e você vai achar diversos resumos. Então, aqui, vou falar sobre os motivos pelos quais você deveria ler o livro, além de assistir o filme.
Para começar, o livro desenvolve melhor o romance e a personalidade das personagens. O livro te dá uma ambientação maravilhosa e, apesar da linguagem e da idade, é bastante fácil de ler, principalmente se você pegar uma edição decente. O livro, também, tem muitas, mas muitas, cenas que não estão no filme. Se você viu a série (sim, tem uma série, é ótima, RECOMENDO), talvez reconheça a maioria, mas não todas.

Se você gostou do filme, não duvido que vai amar o livro. Sério. O filme é como se fosse uma versão resumida, e me lembro de (apesar de ter amado a história) ter achado tudo muito corrido, não ter visto o desenvolvimento do romance acontecer muito bem, o que se resolveu completamente quando li o livro.

Aliás, sobre a série: é antiga, mas é ótima. Muito mais semelhante ao livro, atores ótimos, COLIN FIRTH NOVINHO DE ROUPA COLADA. Tem uma entrada muito bonitinha e, senhor, a ambientação e as personagens são feitas de maneira muito boa. Sugiro assistir a série, ler o livro, ver o filme e procurar as adaptações <3
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Estereótipos em romance – Parte II

segunda-feira, 7 de março de 2016

Por: Anne L


Encerro o post agora com a segunda parte, que vai trazer os estereótipos em romance yaoi e yuri. Vale lembrar que muitos já mostrados na Parte I também se aplicam aqui, mas não repetirei os itens. 

O machismo também exerce forte influência no que citarei abaixo, em especial com a ideia de “hetenormatividade”. Para quem não sabe o que é “heteronormativo”, a definição: 

he•te•ro•nor•ma•ti•vo 
(hetero- + normativo)


adjetivo


Que estabelece como norma a heterossexualidade e a instituição de categorias distintas, rígidas e complementares de masculino e feminino ou que é relativo a heteronormatividade.

Enquanto pesquisava, notei que muitas pessoas apontavam mais estereótipos de personagens que do romance em si. Já falei de alguns (em yaoi) neste post.

- Estereótipos em romance yaoi e yuri

Homem e mulher: Heteronormatividade define esse item. No yaoi, o seme (ativo), é sempre grandão — seja em altura e/ou em músculos —, grosseiro e com traços tidos como masculinos, tanto físicos como de personalidade, além de ter um maior foco em sexo. O uke (passivo), por sua vez, é pequeno, frágil, virgem e com necessidade eterna de ser protegido. Foca na parte romântica da relação. 
No yuri, apesar de ser mais incomum trazer divisões como seme e uke — ainda que elas existam: tachi é a “ativa”, e neko, a “passiva” —, elas se aplicam às aparências e à personalidade das personagens. Uma das garotas costuma refletir a ideia clássica de “homem”: cabelos curtos, roupas largas, voz grossa, atitude de moleca, foco em sexo. Também toma as iniciativas e guia a parceira pelo relacionamento. A outra, é claro, reflete a ideia de “mulher”: é delicada, fofa, feminina, gosta de vestidos e afins, foca em romance e não sabe muito sobre relacionamentos. 
Esse tipo de estereótipo perpetua os argumentos de que “gay deveria ser assim, lésbica deveria ser assado”, como se a orientação sexual das pessoas as definisse e não precisasse de mais nada para explicar as atitudes e preferências de um personagem além do papel dele na relação. Há brigas sérias dentro de fandoms e em fics quando um autor tenta fugir do estereótipo.

Não sou gay/lésbica, é só com você: Ao que parece, muitos protagonistas nunca tiveram qualquer tipo de contato mais íntimo com outros seres humanos até aparecer aquele indivíduo, o que faz o coração bater mais forte e o corpo flutuar sem razão. Isso fica ainda mais estranho quando se trata de relacionamentos homossexuais, porque supostamente era todo mundo hétero antes de aparecer aquele personagem. Não é impossível alguém descobrir a própria orientação sexual depois de conhecer uma pessoa específica, porém, o problema, como de costume, não é isso acontecer, mas acontecer sempre. Uma versão um pouco alterada do seme é vista aqui, o que, em vez de assumido e predador sexual, é o “machão” ainda no armário. O par dele costuma ser um uke assumido e de bem com a vida, que sofre por conta do preconceito de seu parceiro. 
Às vezes, os personagens desse estereótipo chegam ao extremo de dizer “não sou gay/lésbica, é só com você” ou variantes, como o clássico “mas somos homens, não podemos...” logo antes de cederem. Com essa negação, de repente, fica tudo bem. Heterossexualidade salva. 

Não existe romance em yuri: Pode até ocorrer algo similar em yaoi de vez em quando, mas esse estereótipo eu vejo adoidado em histórias yuri (e animes yuri, e tudo yuri). O romance vira apenas um acessório no meio de capítulos e capítulos de cenas de sexo. É frequente também que o emprego de uma das meninas na história seja garota de programa, dançarina exótica e afins, facilitando ainda mais nesse aspecto, como se ir para a cama fosse a única maneira de duas mulheres iniciarem um relacionamento (e que é baseado em sexo e só). Pode colocar romance em yuri sem medo, gente. 

Se beber, criarei um plot: Quem nunca viu uma fic em que o primeiro contato íntimo entre os personagens acontece por causa de uma noite de bebedeira? Qualquer um que já teve um relacionamento amoroso ou que observou o dos outros sabe como funciona, como tudo pode começar. Duvido inclusive que vá haver muita gente cujo namoro engatou só depois de o álcool deixar você e seu parceiro mais suscetíveis a aceitar a situação. E tem esse detalhe também, né: por que os personagens não conseguem lidar com os próprios sentimentos sem essa “ajuda”? Mesmo que um deles seja homofóbico ou simplesmente não queira aceitar que gosta do outro, é mais interessante trabalhar nisso que recorrer a esse estereótipo. E isso vale também para enredos com Verdade ou Desafio, ou Sete Minutos no Paraíso. 
Adiciono aqui uma observação sobre histórias em que um dos personagens fica tão bêbado que nem consegue ficar de pé, mas acaba dormindo com o futuro parceiro ou é coagido por outros a tocar nele: isso é abuso sexual, podendo ou não haver estupro (depende da fic). 

Não é crime, é amor – Parte II: Vou repetir esse porque é uma questão de extrema importância: aquele seme que persegue o uke, mesmo sob protestos, não é romântico; fazer o uke de escravo sexual contra a vontade dele não é romântico; a personagem que toca a outra sem convite não está sendo engraçadinha (em yuri, por exemplo, entre outros tipos de fanservice, é comum haver uma cena em que uma garota aperta os seios da outra, causando constrangimento). Uma versão um pouco alterada do uke é vista aqui, o tsundere, que é violento, se recusa a admitir que sente alguma coisa e sempre diz “não”, levando a cenas duvidosas na história. Óbvio que existem enredos e enredos, e, como falei na Parte I, pode ser que a pessoa consiga usar esses temas de forma diferente e intrigante. Além disso, você continua livre para trabalhar com essas situações na sua história da maneira como normalmente são apresentadas, mas não deixa de ser uma boa pesquisar a respeito antes.

Meu melhor amigo é o meu amor: Enquanto, em romance hétero, os melhores amigos são o vértice esquecido do triângulo, em yaoi e yuri, eles adquirem dois papéis: o iniciador e o amor verdadeiro. 
O nome “iniciador” já dá a dica, é aquele que introduz ao outro personagem a ideia de que talvez ele tenha estado no armário a vida toda e nunca percebeu. Eles se beijam (ou até chegam ao sexo) numa brincadeira e, pronto, quem foi “iniciado” segue com a vida e, eventualmente, encontra seu parceiro real. 
O “amor verdadeiro” pode ou não ser um iniciador, mas a diferença é que, no final, ele formará um casal com o outro personagem. A história se repete: sempre foram amigos, sempre estiveram lá um para o outro, estava escrito nas estrelas. 

Se não fosse aquele mal-entendido – Parte II: Esse também mereceu um comentário aqui porque o motivo da briga que separa o casal em yaoi/yuri em muitos casos é uma crise homofóbica. Tem história em que o personagem que sofre a crise sempre se aceitou, nunca teve quaisquer tipos de preconceito em relação à própria orientação sexual, mas de repente bateu aquele terror: “estou mesmo apaixonado por fulano(a)?! Mas fulano(a) é [insira aqui o gênero]!”. Ele vem em conjunto com o Não sou gay, ideia que o personagem repete para si mesmo ou para seu parceiro, de modo a ficar de bem com a vida e justificar o desentendimento. 

O mundo mágico dos fetiches inexistentes: Sem pesquisa e aprofundamento em qualquer assunto, é meio complicado escrever sobre ele. Considerando que muitos escritores do Nyah! ainda são bem novinhos ou, infelizmente, sofrem algumas consequências do machismo enraizado na sociedade (sim, isso de novo), não é surpreendente que as cenas de sexo (hentai, lemon ou orange) estejam cheias de erros anatômicos ou acontecimentos impossíveis. A Diandra fala sobre isso neste post (que é para maiores de 18 anos, só para lembrar), então comentarei sobre a inexistência de fetiches e afins nessas cenas. 
É certo que, de um jeito ou de outro, “50 Tons de Cinza” mostrou um novo lado a ser explorado entre quatro paredes e, embora os romances hétero estejam fazendo justamente isso (com suas limitações, mas mesmo assim), os yaoi e yuri, frequentemente, deixam a desejar em termos de variedade. Depois da primeira vez, o casal não tem curiosidade de experimentar algo diferente, os personagens não têm fetiches ou vontade de mudar alguma coisa, e por aí vai. Isso peca um pouco no quesito “realidade” e também deixa os personagens mais rasos, já que essa parte também tem a ver com a personalidade de cada um, suas experiências de vida, etc. Além do mais, é um estereótipo que contribui para que todas as cenas de sexo pareçam meio iguais. Alguém já teve essa sensação lendo lemon e orange? Pois é. 

E encerramos o post com menções honrosas de estereótipos citados na Parte I que também ocorrem aqui: Opostos se atraem (o nerd e o badboy, o machão e o gay afeminado, a menina fofa e a moleca); O enredo como desculpa para o romance (concidentemente, o futuro casal precisa morar junto/fazer um trabalho da escola juntos/trabalhar juntos numa empresa); Já dizia “American Pie” (“e a dor se transformou em prazer”); À primeira vista; Quebra de rotina; Eu tinha um objetivo na vida... Até encontrar você (em geral, o uke ou a moça mais feminina passam a viver em função dos parceiros); Destruidora de lares (em alguns poucos casos, o romance yuri tem um garoto no papel).
O meu objetivo não foi problematizar os itens da lista, ainda que seja muito fácil fazer isso com a maioria; para esse fim, precisaria de outro post só focando nesse lado. Só que é inevitável não apontar de onde vêm certos estereótipos — ou talvez todos eles — quando se tenta explicá-los. Mantenho, porém, o que disse na Parte I: não estou fazendo uma crítica a nenhuma história e os autores continuam livres para escreverem o que desejarem. Mesmo assim, é sempre útil entender o que criamos e por que seguimos determinados caminhos, tanto para compreender melhor nossas próprias histórias quanto para nos tornar mais críticos.

Material consultado:
"heteronormativo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/heteronormativo [consultado em 29-01-2016].

Pesquisa de opinião em vários grupos de escrita. 


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