Como Abordar G!P E Transexualidade Em Histórias

terça-feira, 20 de dezembro de 2016


Por: Cris Reese

E aí galera! Belezinha?

Sejam bem vindos à minha estreia no blog! - olha ela se achando -.

Sou Cris Reese e venho aqui para trazer um tema, de certa forma, polêmico. Um tema muito usado nas fic's da categoria séries: intersexualidade e transexualidade.

As assanhadas de plantão adoram, né?

Entraremos nesta jornada para entender qual a diferença e como abordar esse tema delicado, o que será um auxílio para sua próxima ou atual fic.

Lembrando que é necessário ter uma mente aberta para esse assunto, que muitas vezes é vulgarizado ou deturpado em algumas histórias. O foco aqui será na abordagem de fic’s, mais detalhes sobre o tema deixarei nas referências.        


Primeiro, as diferenças:
  • Inter e G!P:
    G!P é um termo muito usado nas fic's americanas, Girl with penis (garota com pênis). No entanto, intersexualidade não se restringe apenas às mulheres.
    Intersexo é quando o seu sexo biológico não se encaixa na binária masculina/feminina.
    Ex: Uma mulher nasce com um pênis, desenvolvido ou não. Ou ao contrário, quando o homem nasce com uma vagina. Nesses casos há a possibilidade do individuo ser fértil. Há também o caso de apenas o órgão sexual reprodutor interno ser diferente (útero, escroto, etc).
    Nas aulas de biologia é dado o exemplo do menino que aos 13 anos sentiu muito dor e, ao ir no médico descobriu que era cólica... E que era uma mulher. Alguém lembra dessa aula? Alguns inters não sabem de sua condição até a puberdade.

    Famosos Inter BR
    :
    Roberta close
    (Há mais, porém é apenas especulação)

  • Trans:
    “Transexual é o indivíduo que nasce biologicamente pertencente a um determinado sexo, mas sente-se, percebe-se e tem a vivência psíquica de pertencer ao outro sexo. Dizemos que a identidade de gênero (saber-se homem ou mulher) não é congruente com o sexo anatômico, biológico.” explica Alexandre Saadeh, psiquiatra coordenador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo.
    Em outras palavras, nasceu homem(mulher), mas jamais sentiu ser um(a).

    Famosos trans BR:
    Thammy Gretchen, Lea T, Tereza Brant, etc.



Pesquisar é imprescindível:
Empatia ainda mais. Então, antes de começar sua história, seja o tema primário ou secundário, se coloque na pele de uma pessoa que tem essa condição.

Se fosse você lendo, gostaria da forma como você está sendo retratado? Se sentiria ofendido?

É importante avaliar isso, porque é um grupo discriminado, subjugado e incompreendido de pessoas que você estará falando a respeito.


Identidade sexual:
Ser inter ou trans não é garantia de homossexualidade.

Um nascido homem, transexualizado para mulher, pode continuar gostando de mulher. (Seu cérebro deve ter bugado aqui, mas deu para entender, né? Só esqueça os rótulos que ficará mais fácil).


Caracterização nas fic´s:
É muito comum nas fic's esses personagens serem uma Shane (personagem "fodástico" no quesito “pegação” da série The L word ). Porém, não é por aí que a banda toca. Há sim muita curiosidade acerca do assunto, no entanto, há muito preconceito também. É quase ofensivo dizer que um trans ou inter entra em algum lugar e é aclamado por ser diferente. Há uma distância muito grande da realidade ao escrever isso (com exceção quando as pessoas desconhecem a condição inter ou trans).

Leve isso em conta e observe as opiniões alheias, pesquisar é importante não apenas para deixar a fic realista, mas para seu conhecimento e embasamento sobre vários assuntos também.
No caso dos inter, eles são “invisíveis”, devido ao fato de sua única diferença ser a genitália, muitos se escondem por vergonha.


Escolhendo como tema principal (sugestões):

  • Trans: Uma sugestão é imaginar que a personagem não se sente bem do jeito que nasceu. Sente-se desconfortável dentro do seu corpo. Às vezes beira o desespero por sentir que tem algo errado, aquilo não é quem deveria ser; as roupas incomodam, parecem erradas; o que o espelho reflete não é o que ela sente ser e apenas ela enxerga isso.
    Se optar por colocar a família na história, é interessante demonstrar a posição deles - família - diante disso. Transexualidade não é normalmente aceita pela família, mas isso não é regra.
    Colocar quando e por que o personagem decidiu lutar para mudar, também fica interessante. Os motivos são o que mais definem o caráter e personalidade do personagem nesse caso.

  • Inter: Há duas ideias interessantes que podem ser exploradas. Uma é o personagem não saber de sua condição e descobrir em sua adolescência; e outra é sempre saber, aceitando ou não.
    No primeiro caso, imagine a personagem pertencendo a um gênero e... de repente tudo mudar! Fica a dúvida sobre quem realmente se é, e milhares outras. O que mudaria na vida dela? O que fazer com uma nova identidade? Será que amou seus amigos como amigos ou era algo há mais?
    No segundo caso, a personagem se sente bem com sua condição? A esconde? Sente vergonha? Não está nem aí? Sente orgulho? Esse caso é mais usado com o personagem adulto.      


“Ei, por que fulano não opera?”  

Essa é uma pergunta que muitos leitores fazem. A ideia de optar pelo mais prático é sempre o mais aceito. E esse é um dos motivos da pergunta: “Não seria muito mais fácil operar para não ter que sofrer preconceito?” Esteja preparado para essa pergunta.
E sobre cirurgia de adequação de sexo, a dificuldade da mudança que o transexual deve suportar nunca é o resultado de um capricho, curiosidade ou tédio. A escolha deste caminho ocorre, porque nenhuma outra forma de vida para ele é suportável.

Dica importante:
Não use a palavra “hermafrodita”, por favor, é um xingamento doloroso. É uma palavra estigmatizada que as pessoas associam com ter os dois tipos de genitália funcionando ao mesmo tempo, o que não é possível para o ser humano.

Como tema secundário ou persona coadjuvante:
Em segundo plano é mais fácil, tudo dependerá da abertura e intensidade que decidir dar a personagem. Não deixe de levar em conta a curiosidade do seu leitor, esse assunto costuma gerar muita curiosidade. O que comem? O que fazem? Vejam hoje no glob... Não espera! Canal errado. Voltando...    


Avisos:
Não esqueça de avisar ao seu leitor que há transexualidade na história, algumas pessoas não gostam de ler. Nas opções de avisos há "transexualidade", não deixe de marcar. Marque a mesma no caso de inter.
Mas não pense que esse assunto é apenas against, é possível sair muita comédia daqui. Já li muitas fic's divertidas com esse tema.

Deixo aqui algumas dicas de filmes, na referência há mais.
Qualquer dúvida, deixe nos comentários.


Dicas de filme:         
Tomboy (2011)
Má educação (2004)
Madame butterfly (1993)
Meninos não choram (1999)
House (5 temp, ep 12) série
XXY (2007)
A garota dinamarquesa (2015)


Referência:
Corpo Em Obra - "contribuições Para a Clinica Psicanalitica do Transexualismo" (Cód. 3658614)
Kalaf Cossi, 2014
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Como Descrever Vestuário

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Por: Ana Mesquita


Olá! Eu sou a Ana, e hoje estou aqui para falar um pouco sobre descrições de vestuário. Vou dividir o artigo em seções, para que as informações não fiquem largadas, tudo bem?

Então vamos lá!

A IMPORTÂNCIA

Assim como toda descrição na sua história, a descrição do vestuário é necessária de acordo com a relevância do que é descrito. Mas a grande questão é: como definir a relevância de uma roupa? Para ajudar com isso, eu vou lhes mostras algumas situações para que vocês tenham uma ideia de qual caminho seguir:

  • Caracterização da personagem: o tipo de vestuário que sua personagem usa é uma maneira de exteriorizar a personalidade dela. Nesse caso, o ideal é descrever suas roupas de forma superficial, não precisa dizer cada peça de roupa que há no seu armário, mas sim focar-se nos pontos em comum dessas roupas: há muitos jeans? Ela customiza suas roupas? Gosta de roupas formais ou informais? Aliás, ela se importa com o que veste?
  • As características físicas da personagem e como elas contrastam com seu vestuário: descrever o que sua personagem veste também é uma forma de descrever seus atributos físicos. Como as cores que ela usualmente usa contrastam com sua pele, seus olhos e/ou seu cabelo? E qual é o caimento das vestes de acordo com o formato do seu corpo? Sua personagem prefere roupas justas ou roupas largas? Mostram muito ou pouco de seu corpo?
  • Situações especiais: assim como o vestuário habitual de sua personagem é importante, ocasiões em que ela é forçada a usar roupas que não está acostumada também o são! Como são essas roupas? Como ela se sente vestindo-as? Em que elas contrastam com as vestes que normalmente usa?

Todos esses pontos são essenciais quando você vai pensar na importância da roupa para a caracterização de uma personagem. É claro que você não precisa responder a todas elas, mas é interessante sempre refletir sobre essas questões na hora em que for descrever o vestuário.


A PARTE VISUAL

Agora vamos para a parte prática da descrição! Quais termos usar para descrever uma roupa em seu aspecto físico? O mais importante nessa parte é conhecer quais os componentes de uma roupa que são mais marcantes, e não se esqueça de sempre pensar em quais deles são relevantes a partir das questões apontadas acima.
  • Peça de roupa: meio óbvio apontar que você precisa indicar qual peça está descrevendo, se é uma blusa, um short, saia, calça, paletó etc. Mas também é importante dizer qual a situação física da sua roupa. Ela é desgastada pelo uso? Puída? Bem cuidada? Desbotada? Amassada? Essas características, além de ajudar na imagem mental do leitor, também vão dizer algo sobre a personalidade da sua personagem.
  • Tecido/Material: temos seda, algodão, poliéster... há uma infinidade de tecidos, alguns mais comuns que outros e você pode usá-los de duas formas em sua descrição
    1. Poupar o esforço de descrições excessivas apenas definindo qual o tecido, principalmente se ele for conhecido. Alguns exemplos: camisa de algodão, os famosos suéteres de cashmere, calças jeans, camisola de seda. São tipos de tecidos que evocam uma imagem rápida ao leitor por serem comuns, então, não é necessário que você perca tempo com outras características, como a textura.
    2. Se for um tecido não tão comum assim, é interessante dar ao leitor mais além do que a simples definição do tecido. Aqui terá de haver mais esforço para descrever outros pontos, então novamente eu tenho que enfatizar a necessidade de se perguntar: qual a relevância dessa roupa?
  • Textura: macia, com paetês, aveludada... Essas são características importantes, principalmente se estiver lidando com cenas de contato físico que envolvem sua personagem, ou mesmo para dar ao leitor a ideia do conjunto que compõe o vestuário se houver texturas diferentes.
  • Estampa/Cores: os pontos importantes ao descrever esse aspecto são:
    1. Esse já foi citado, mas vou reforçar — como as cores e estampas contrastam com as cores do seu personagem? Elas destacam alguma parte? Disfarçam outra parte?
    2. As cores de suas vestes são harmônicas, ou, de alguma forma, elas não se encaixam?
  • Corte: novamente, já falei um pouco sobre isso ali em cima, ainda assim, é sempre importante ressaltar que, se você está descrevendo uma roupa, significa que ela tem importância na caracterização da sua personagem, que por sua vez, significa que é importante dizer como essa roupa cai sobre o corpo dela. Quais partes que eles salientam e quais que disfarça? O quanto ele cobre do seu corpo? Basicamente, é isso que você terá de responder nesse quesito.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Lembre-se que descrições podem ser chatas, então não se estenda muito nelas. A relevância do que você vai dizer sobre o vestuário também interfere no tamanho da descrição: se for um quadro geral das roupas que a personagem usa, então não é necessário se estender por mais de uma linha ou duas. Se for algo especial, então pode usar mais. Mas, ao priorizar o que você falar, eu quero sugerir uma ordem de quais informações visuais são mais importantes:

Peça de roupa > tecido > estampa/cores > caimento > textura

E é isso, gente, espero ter ajudado!


Referências:
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20 Regras Para Escrever Histórias De Detetives

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Por: Estrela de Rubi


Olá pessoal! Este é o meu terceiro artigo aqui. Para mim é uma honra ajudar a enriquecer este blog, que tem vindo a ser um grande apoio a quem pretende iniciar-se na longa caminhada de escrever uma história. 

Mas deixemos de lamechices e passemos ao que interessa, né?

Este artigo é um complemento ao da NamelessChick, que elaborou um post sobre o tema “Como escrever um bom enredo policial”. Nas próximas linhas irei expor as vinte regras criadas por S. Van Dine, um escritor de grande renome na literatura policial norte-americana dos anos 20 e 30.   

Para S. Van Dine, um enredo policial é uma espécie de jogo intelectual. O autor deve jogar de uma forma justa com o leitor. Não pode recorrer a truques e a enganos e continuar a manter a sua honestidade como se estivesse a fazer trapaça num jogo de cartas. Deve ser mais sagaz que o leitor e manter o interesse dele através de uma ingenuidade pura. Ao escrever-se uma história policial há leis muito definidas – não escritas, talvez, mas nenhuma delas menos obrigatória; e todos os criadores de ficção policial que se auto-respeitem devem observá-las fielmente.

Eis, então, uma espécie de “Credo” de Van Dine, baseado na sua prática como escritor de histórias policiais:

1- “O leitor deve ter as mesmas oportunidades que o detetive em resolver o mistério.”
Todas as pistas devem ser claramente referidas e descritas.

2- “Não se deve jogar com nenhum truque ou engano voluntário, para além daqueles desempenhados legitimamente pelo próprio criminoso ou detetive.”

3- “Não deve haver interesses amorosos na história.”
Introduzir o amor é misturar uma experiência puramente intelectual com sentimentos irrelevantes. O assunto em mão é levar o criminoso à barra da justiça, não levar um casal de apaixonados ao altar do matrimônio.

4- “O próprio detetive, como um dos investigadores oficiais, nunca deve ser o culpado.”
Esse é um truque sujo, equivalente a trocar ouro por prata.

5- “O culpado deve ser descoberto pela dedução lógica”
Não deve ser pelo acaso, pela coincidência ou por uma confissão imotivada. Resolver um problema policial assim é o mesmo que enviar o leitor caçar gansos selvagens e dizer-lhe, depois de haver falhado, que durante todo o tempo tínhamos conosco o objeto da sua procura. Um autor assim não passa de um charlatão barato.

6- “O romance policial deve incluir um detetive; e um detetive só o é se detectar, se descobrir.”
A função de um detetive é reunir pistas que eventualmente conduzam à pessoa que realizou o trabalho sujo; e se o detetive não chegar às suas conclusões através de uma análise dessas pistas, resolveu tanto o problema como o estudante que chega a uma resposta através de uma cábula(cola).

7- “Numa história policial tem de haver um cadáver”
Para Van Dine, não há crime como o assassinato. Trezentas páginas é carga de mais para um crime que não seja homicídio. Afinal, deve-se recompensar a perda de tempo e de energia do leitor. Os leitores são essencialmente humanos e, portanto, um crime de homicídio desperta o seu sentido de vingança e de horror. Eles desejam levar o criminoso à justiça; e quando “o crime mais horrendo” tiver sido cometido, inicia-se a caça com todo o entusiasmo justiceiro de que é capaz o leitor mais cavalheiresco.

8- “O problema do crime deve ser resolvido por meios estritamente naturais.” Esses métodos de descobrir a verdade através de processos ocultos, como sessões espíritas, leitura da mente, quiromancia e outros, são tabu. O leitor deve estar em pé de igualdade com um detetive racional, mas se tem de competir com o mundo dos espíritos e percorrer à quarta dimensão da metafísica, é derrotado.

9- “Só pode haver um único detetive – isto é, um protagonista da dedução.” Arranjar três ou quatro, ou por vezes um grupo de detetives, para resolver um problema é somente dispersar o interesse e interromper o fio direto da lógica, como tirar vantagem injusta do leitor que, desde o início, entra em competição com o detetive numa batalha mental. Se houver mais do que um detetive, o leitor não sabe quem é o seu co-dedutor. É o mesmo que colocar o leitor a correr sozinho contra uma equipa de estafetas.

10- “O culpado deve ser uma pessoa que desempenhou um papel mais ou menos proeminente na história”
Isto é, uma pessoa com quem o leitor esteja familiarizado e por quem se interesse. Atribuir o crime, no capítulo final, a um estranho ou a uma pessoa que desempenhou um papel sem importância na história é confessar a incapacidade de competir com o leitor.

11- “Criados – como mordomos, empregados de mesa, copeiros, cozinheiros, etc… não devem ser escolhidos pelo autor como os culpados.”
Seria uma solução demasiado fácil. É insatisfatório e leva o leitor a sentir que esteve a perder o seu tempo. O culpado deve ser uma pessoa de bem – alguém de quem em geral não se suspeita; é que se o crime foi a obra sórdida de um demente, o autor estaria a perder o seu tempo a descrevê-la na forma de livro.

12- “Tem de haver um culpado, por muitos crimes que tenham sido cometidos.” O culpado pode, naturalmente, ter um ajudante ou cúmplice menor; mas o ônus completo deve cair sobre um único par de ombros: toda a indignação do leitor deve concentrar-se numa única figura negra.

13- “Sociedades secretas, camorras, máfias, etc… não têm lugar numa história policial.”
Aqui, o autor entra na ficção e no romance de serviço secreto. Um crime fascinante e verdadeiramente interessante fica irremediavelmente estragado com um tal culpado. Uma história policial deve dar ao criminoso uma boa oportunidade, mas é ir demasiado longe envolvê-lo numa sociedade secreta (com os seus ubíquos santuários de proteção). Nenhum criminoso de classe e estilo iria aceitar tais ajudas na sua luta com a polícia.

14- “O método do crime e os meios para o detectar devem ser racionais e científicos.”
Isto é, a pseudociência e instrumentos puramente imaginativos e especulativos não devem ser tolerados num romance policial. Por exemplo, a morte de uma vítima por um elemento recém-descoberto, um super-rádio, por exemplo, não é um problema legítimo, nem tão pouco deve intervir numa droga rara e desconhecida, que apenas existe na imaginação do autor. Um escritor de histórias policiais deve limitar-se, toxicologicamente falando, à farmacopéia. Uma vez mergulhado no mundo da fantasia, ultrapassou as fronteiras da ficção policial, aventurando-se por caminhos desconhecidos.

15- “A verdade do problema deve ser sempre evidente – desde que o leitor seja suficientemente sagaz para a detectar.”
Com isto, Van Dine quer dizer que se o leitor, depois de conhecer a explicação do crime, reler o livro, deve verificar que a solução afinal tinha estado patente desde o princípio – que todas as pistas realmente apontavam para esse culpado – e que, se tivesse sido tão esperto como o detetive, teria sido capaz de resolver sozinho o mistério sem chegar ao último capítulo. É evidente que o leitor esperto frequentemente resolve o problema. E uma das teorias básicas de ficção policial é que se uma história policial é estruturada como deve ser, é impossível ocultar a solução a todos os leitores. Haverá inevitavelmente um certo número deles tão perspicazes como o autor; e se o autor manifesta o adequado desportivismo e honestidade na sua declaração e projeção do crime e das suas pistas, estes leitores perspicazes, pela análise, eliminação de hipóteses e lógica, serão capazes de apontar o dedo ao culpado tão depressa quanto o detetive. E aqui jaz o gozo do jogo. Aqui temos uma explicação para o fato de leitores que repelem um romance popular vulgar serem capazes de devorar um romance policial.

16- “Uma história policial não deve conter grandes passagens descritivas”
Não deve demorar-se em questões secundárias, em análises subtilmente elaboradas da personalidade, nem deve ter preocupações de “atmosfera”. Tais questões não desempenham nenhum papel vital no relato do crime e das deduções. Suspendem a ação e apresentam questões irrelevantes para o alvo fundamental que é apresentar um problema, analisá-lo e conduzi-lo a uma conclusão bem sucedida. É claro que tem de haver descrição suficiente e um delinear das personagens a fim de dar verossimilhança ao romance; mas quando um autor de uma história policial atinge aquele ponto literário em que cria uma sensação dominante de realidade e atrai o interesse e a simpatia do leitor pelas personagens e pelo problema, então foi demasiado longe na técnica puramente “literária” relativamente ao que é legítimo e compatível face às necessidades de um documento de um problema criminoso. Uma história policial é um assunto sinistro e o leitor entra nela não pelo valor literário e estilo ou pelas lindas descrições e projeção das personalidades, mas pelo estímulo mental e pela atividade intelectual – tal como se vai assistir a um jogo de futebol ou como quando se resolve um problema de palavras cruzadas. A descrição da beleza do campo dificilmente aumenta o interesse pela luta entre duas equipes adversárias; e dissertações sobre etimologia e ortografia intercaladas nas definições de um problema de palavras cruzadas tendem apenas a irritar a pessoa interessada na correta resolução do problema.

17- “Um criminoso profissional nunca deve sofrer o ônus da culpa de um crime numa história policial.”
Os crimes cometidos por arrombadores e bandidos são do foro do Departamento da Polícia – não de autores e de brilhantes detetives amadores. Tais crimes pertencem ao trabalho rotineiro das Brigadas de Homicídios. Um crime realmente fascinante é aquele cometido por um pilar de uma igreja ou por uma solteirona conhecida pelas suas obras de caridade.

18- “Um crime numa história policial nunca deve transformar-se num acidente   ou num suicídio.”
Terminar uma odisséia de pesquisa intensa com um tal anticlímax é pregar uma partida imperdoável ao leitor. Se quem compra um livro exigisse a devolução do dinheiro com a alegação de que o crime foi uma farsa, qualquer tribunal com um mínimo de sentido de justiça decidiria em seu favor e repreenderia severamente o autor que assim teria enganado um leitor cheio de boas intenções.

19- “Os motivos de todos os crimes de uma história policial devem ser pessoais.”
Tramas internacionais e políticas bélicas pertencem a uma categoria diferente de ficção – as histórias de serviços secretos, por exemplo. Mas uma história de um crime deve refletir as experiências diárias do leitor e dar-lhe uma certa saída para os seus próprios desejos e emoções reprimidas.

20- Os próximos pontos são alguns dos instrumentos que nenhum autor policial, que se preze, utilizará nas suas histórias. Para Van Dine, as seguintes alíneas têm sido usadas com demasiada frequência e são conhecidas por todos os verdadeiros amantes da literatura do crime. Utilizá-las é confessar a incapacidade do autor e a sua falta de originalidade.
a) “Determinar a identidade do culpado pela comparação da “bituca” deixada na cena do crime com o cigarro recentemente fumado pelo suspeito.”
b) “A sessão espírita para assustar o culpado, levando-o a ceder.”
c) “Impressões digitais forjadas.”
d) “O álibi da pessoa parva.”
e) “O cão que não ladra e, portanto, revela o fato de o intruso ser familiar.”
f) “A descoberta final do crime num gêmeo ou num parente muito parecido com a pessoa suspeita mas inocente.”
g) “A seringa hipodérmica e o remédio em gotas”
h) “A entrada do criminoso numa sala trancada depois de, eventualmente, a polícia ter lá estado.”
i)“O teste da associação de palavras para a detecção do culpado.”
j) “A carta cifrada ou codificada que é eventualmente descoberta pelo investigador.”      

E aqui termino, desejando a todos os futuros romancistas policiais muita sorte para conseguir escrever uma história seguindo com rigor cada regra descrita por Van Dine.  ;)



BIBLIOGRAFIA:
S.S. Van Dine; “The Winter Murder Case”; Clube do Crime; 1995; Publicações Europa-América; pág 89
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Dicas e Explicações Sobre Sex Talk

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Por: Grim o

Aviso importante: esse artigo é proibido para menores de dezoito anos.

Olá, galera! Essa aqui é a minha estreia no Blog da Liga e eu escolhi já um tema bem quente pra isso. :P Não será algo muito longo, visto que não há um manual sobre “como fazer uma boa sex talk”, mas trago aqui algumas informações importantes e dicas que podem vir a calhar na hora de fazer sua história +18 ;)

Então, para quem desconhece, sex talk (tradução livre: conversa sobre sexo) ou dirty talk (t.l.: conversa suja) é um artifício muito comum em livros e fanfictions que abordam o tema “sexo”. Não é algo moderno, apesar de ter sido disseminado com a onda de livros eróticos que invadiu as livrarias de todo o mundo. Marquês de Sade, escritor do livro “Os 120 Dias de Sodoma”, já falava abertamente sobre seus benefícios ainda no século XVIII.

Mas o que realmente é sex talk?

Bem, sex talk pode se manifestar de diversas formas, seja em ficção ou vida real. Geralmente se trata de uma conversa entre dois ou mais parceiros em que o foco principal é o sexo. Pode ser feito como preliminares, para deixar a relação mais apimentada no momento; também durante o sexo, como forma de causar mais excitação; assim como após, em uma forma de perpetuar a sensação prazerosa que vem com o sexo.

No entanto, não é regra que tenha que ser feito presencialmente. Sex talk também tem as suas variantes para “sexo à distância”, como o phone sex (t.l.: sexo por telefone) e cybersex (t.l.: sexo cibernético). Afinal, quantas vezes vocês não viram em histórias os personagens falando por telefone sobre o que fariam com o(a) parceiro(a) se estivessem ali? Ou personagens descrevendo o que estavam vestido e provocando um ao outro por um chat ou vídeo-chamada? Essas são algumas variantes de sex talk.

Há uma multiplicidade de assuntos que compõem uma sex talk dentro do tema “sexo”. Pode acontecer em forma de comandos, como, por exemplo, em 50 Tons de Cinza com a relação dominante e submisso do BDMS. Pode ser constituída por descrições eróticas, desde sobre o que a pessoa está vestido, até a forma como ela se tocaria ou tocaria o parceiro. Também há conversas em que se usa palavras rudes e/ou chulas, como, por exemplo, “você é uma puta”, “vou te arregaçar”, “chupa meu pau, sua vadia” e variantes.

Algo muito importante que deve ser dito sobre sex talk: é algo que deve ser debatido com todos os parceiros e eles devem estar de acordo e confortáveis com o uso de qualquer uma das formas. Usar palavras rudes ou comandos, até mesmo descrições, sem a aprovação do(s) parceiro(s) pode causar desconforto, humilhação e, com toda certeza, perda da vontade de fazer sexo. Então muito cuidado!

Agora, passada essa rápida explicação, venho com algumas dicas sobre como fazer um boa sex talk para sua história!

A primeira dica é fique confortável. Não adianta nada você ser um autor super tímido com seus personagens e ficar incomodado com o tema “sexo”. Escrever uma sex talk é algo que exige uma certa tranquilidade e bem-estar consigo mesmo, porque se não, no fim, a conversa entre os personagens vai ficar forçada, sem graça e até irritante para certos leitores. Por isso, se você não sente comodidade em escrever cenas onde os personagens falam sobre sexo para provocar seus parceiros é melhor que treine para então fazer uma oficial para sua fanfic. Escrever o que chamam de “ficlets” (pequenas fics, geralmente com menos de mil palavras) é uma boa forma de desenvolver cenas com as quais sente dificuldade, afinal são histórias sem compromisso e sem pressão alguma para agradar leitores.

A segunda dica que lhes dou é: estabeleça os personagens que aceitam os diferentes tipos de sex talk. Assim como com pessoas, os personagens têm suas próprias personalidades, gostos e desgostos, e, por isso, é importante que se crie um critério onde você, autor, tem que buscar saber quais aceitam sex talk num geral e, depois, quais aceitam tipos específicos de sex talk. Porque imaginem um personagem super tímido, inexperiente quanto ao que é sexo, que sente vergonha até de ver o namorado sem camisa. Esse é o tipo de personagem que, provavelmente, não conseguiria manter uma sex talk com descrições. Ele possivelmente entraria em combustão de tanta vergonha e timidez antes de conseguir falar algo. xD Por outro lado, imaginem uma personagem mulher e feminista, ela é super presente no movimento, luta diariamente contra o machismo. Esse é um tipo de personagem que, provavelmente, não se daria bem com aquela sex talk que utiliza de palavras rudes e chulas, principalmente se entre essas palavras estiverem as famosas “vadia”, “puta” e variantes. Então é muito importante que você analise os tipos de personagens e casais que existem na sua história para definir quais os estilos de sex talk irá utilizar na história.

Em terceiro, defina o(s) momento(s) correto(s). Talvez “correto” não seja a melhor palavra para descrever, mas tenha em mente que há momentos mais propícios para se escrever uma sex talk, independente dos assuntos e dos meios utilizados para se fazer. Afinal, imagine um personagem virgem, tímido e com pouca experiência sexual. Esse não é o tipo de personagem que, na sua primeira vez, vai ficar dando comandos ou descrevendo situações eróticas para o parceiro. Ou, imaginem um casal que se ama demais, mas que estão separados por algum motivo. No primeiro reencontro, naquela noite de amor e paixão, ele provavelmente estariam mais preocupados em demonstrar os sentimentos que possuem do que ter um super orgasmo ou deixar a(o) parceira(o) super excitado. Por isso deve-se pensar com carinho as cenas que pedem por sex talk, para que ela não apareça forçada em sua história.

E, por fim, se divirta. Porque escrever, seja sobre sexo, amor, mistério, terror ou drama, tem a ver com o prazer que o próprio autor sente ao colocar aquelas palavras no papel. Não force uma sex talk se acha que não está se divertindo ao fazer os personagens interagirem dessa forma. Porque o que mais importa é você, autor. Essa é a sua obra. xD


Indicações de livros contendo sex talk:
Cinquenta Tons de Cinza, por E. L. James.
Série Crossfire, por Sylvia Day
Amante Vingado, por J. R. Ward


Referências bibliográficas:
WARD, J. R. Irmandade da Adaga Negra - Amante Vingado. 1ª Edição. São Paulo: Universo dos Livros, 2010
JAMES, E. L. Trilogia Cinquenta Tons. Rio de Janeiro: Intríseca, 2012
GRAY, Jordan. Dirty Talk: The Ultimate Guide For Beginners (50+ Examples). <https://goo.gl/o0Vvxo> Acesso em: 27/11/2016 às 16:46.
WIKIPÉDIA. Dirty Talk. <https://goo.gl/9veYlo> Acesso em: 27/11/2016 às 16:49.
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Como Escrever Romance Slow Burn [02/02]

segunda-feira, 14 de novembro de 2016


Por: Little Girl

Olá, pessoal! Conforme o prometido, aqui estou eu novamente para dar continuidade ao assunto que começamos alguns dias atrás, sobre como escrever um romance slow burn.

Na publicação passada vimos o que é esse tipo de romance, as formas mais comuns nas quais o encontramos, e vimos, também, uma maneira bem simples de organizar a evolução do casal dentro da história. Portanto, se você ainda não viu o texto passado, corra ver para que possamos continuar o nosso papo.

Hoje eu vou falar sobre a construção do Romance Slow Burn dentro da estrutura de enredo mais conhecida e adotada pelos escritores, que é o enredo construído em três atos (assunto, que por sinal, já foi abordado aqui no blog outras vezes). É importante dizer logo neste início, que existem vários tipos de arcos de enredo, e o que vamos abordar para a construção do slow burn será o arco de mudança positiva, pois os nossos protagonistas sempre iniciarão a nossa história incompletos de certa forma, e através do desenrolar dos fatos eles aprenderão determinadas lições que os farão pessoas melhores no final. Algumas pessoas também têm dúvidas se a estrutura do arco do personagem é algo diferente da estrutura do tema da história, e a resposta para isso é: uma coisa certamente depende da outra. A escritora K. M. Weiland, em quem este texto irá grandemente se basear, diz que “o personagem dirige o enredo, e o enredo molda o arco do personagem. Eles não podem trabalhar independentes um do outro”. Logo, o que vamos fazer aqui é aprender como preparamos o arco dos nossos personagens dentro de uma temática qualquer que está inserida numa história com romance slow burn.

A primeira coisa que você terá que ter em mente é que o slow burn é um romance estruturado de maneira diferente de uma história de amor comum. Como a Elyon Somniare aponta num dos textos aqui do blog, a estrutura mais comumente usada nas histórias de amor dá-se da seguinte forma:

Ato 1: Os protagonistas são apresentados ao leitor (e por vezes um ao outro), começando e estabelecendo a sua relação. No final desta fase estão apaixonados [...], mas algo acontece que os separa.

Ato 2: Os amantes separam-se. Pelo menos um deles tenta reaproximar-se do outro, o qual ou espera pacientemente, ou rejeita as tentativas de aproximação. Pode haver uma luta com um antagonista.

Ato 3: Os amantes reúnem-se, devido ao amante ativo, que encontra um modo de ultrapassar todos os obstáculos. E não podem ser os dois ativos e fazer isso? Podem. O que interessa é que o amor foi testado e é agora maior e melhor.


Note que nesse tipo de enredo os protagonistas já começam a estabelecer uma relação amorosa logo no Primeiro Ato, e já no fim dele se separam para serem reunidos novamente apenas no final do Terceiro Ato. Na estrutura do Romance Slow Burn você não pode, de maneira nenhuma, esquecer que o negócio, sim, é muito lento e levado em “banho-maria”, e, portanto, não, nosso casal não fica junto já no Primeiro Ato. Algo concreto irá acontecer só depois da metade do Segundo Ato, sendo seguidamente atrapalhado por algum empecilho que o fará ficar junto apenas no Terceiro e último Ato. Mas, tia, o negócio é tão lento e entediante assim mesmo? Sim, o negócio é lento, cara criança, mas de modo algum entediante. Desde que você siga os passos para prender a atenção do leitor desde o tenro início de sua história, as coisas estarão bem longe do tédio.

Tá, tia Helen, então, como eu faço para estruturar esse romance nos três atos que a senhora falou?

Simples: da mesma forma como você faria com qualquer outra história com arco de mudança positiva (haha!). Por isso, o que vamos fazer aqui é relembrar como essa estrutura é organizada e, no final, veremos um exemplo prático de construção de enredo e personagens os quais, por maldade minha, se enquadrarão naquele primeiro caso mencionado no post anterior, do típico casal que se odeia à primeira vista, depois se torna amigo e, finalmente, ufa, apaixona-se.

Os cinco elementos que irão compor a história do seu personagem

Para colocarmos a história do nosso lindo casal dentro do arco histórico, precisamos antes definir os elementos que darão vida ao nosso enredo. Eu falarei sobre eles no singular, como se referindo-me apenas a um personagem, mas, claro, se a sua história for escrita tanto sob o ponto de vista do personagem A como pelo ponto de vista de B, lembre-se que esses elementos devem ser planejados para ambos.


1. A Mentira em que seu personagem acredita

A Mentira é uma crença específica que o seu protagonista tem, uma visão mal concebida a respeito de si mesmo, do mundo ou de ambos. O Arco do nosso personagem será todo sobre esta Mentira em que ele acredita, pois ela o faz incompleto, e o faz enxergar as coisas sob uma perspectiva errada. Essa visão mal concebida será o calcanhar de Aquiles do nosso personagem, como M. K. Weiland mesmo menciona, e será o que o impedirá de conseguir o alvo que ele tem traçado no enredo da história, assim como o impedirá de desenvolver também um relacionamento amoroso livre de problemas com a outra pessoa. A Mentira é o que o torna “quebrado”, e a jornada é sobre torná-lo “inteiro” novamente.

A Mentira pode causar em seu personagem alguns sintomas, como o medo, a mágoa e diversos outros.

No Romance Slow Burn: A Mentira é visão de mundo ou de si mesmo que faz com que o personagem tenha dificuldades de amar ou aceitar o amor de outra pessoa.


2. A coisa que seu personagem quer versus a coisa que seu personagem precisa

A Mentira se apresenta na história através do conflito entre a coisa que seu personagem quer (algo que o faz sentir-se aliviado dos sintomas da Mentira) e a coisa que ele realmente precisa (a Verdade que ele precisa descobrir, a cura para a sua Mentira). Por exemplo, na história o seu personagem tem um alvo bem definido (a coisa que ele quer). Mas ele, provavelmente, quer essa coisa por uma razão profunda, que talvez nem mesmo entenda direito, e que pode não ser revelada abertamente ao leitor nos primeiros capítulos da história. Você saberá do que se trata, afinal, é a Mentira na qual ele crê que o faz perseguir o alvo que ele quer para a vida dele naquele momento.

Duas coisas a serem ressaltadas:
  • A coisa que seu personagem quer será, geralmente, algo externo, físico, pois ele está tentando sanar o seu vazio interno correndo atrás de coisas externas;
  • A coisa que seu personagem precisa (a Verdade) é algo que transformará a perspectiva que ele tem sobre si mesmo e o mundo, vindo, portanto, na forma de uma simples (nem um pouco simples) realização.

3. O Fantasma de seu personagem

Bom, a gente sabe que todo mundo possui um passado, certo? Com o nosso protagonista não será diferente. O Fantasma de seu personagem será um evento, algo traumático que o levou a acreditar na Mentira. Esse Fantasma pode prover um bom mistério para a sua história se revelado pouco a pouco. Pode também nunca ser revelado em pormenores, caso você ache que não há necessidade disso, e pode também, algumas vezes, ser dramatizado dentro do Primeiro Ato, como uma espécie de prólogo. Quanto maior o Fantasma, logicamente, maiores os traumas e os efeitos da Mentira na vida de seu personagem.

No Romance Slow Burn: O Fantasma de seu personagem é alguma experiência de vida que o fez ter dificuldades de relacionamento, que o fez ter medo de amar e aceitar o amor proveniente de outra pessoa, e pode estar geralmente atrelado a uma experiência romântica ruim do passado ou mesmo traumas familiares, como rejeição, abandono ou violência.


4. O Momento Característico

É aquele momento no qual você tem a chance de cativar os seus leitores, logo no início do Primeiro Ato. É a forma com a qual você irá apresentar as características importantes de seu personagem, o papel dele na história, revelar qual é o seu alvo dentro do enredo e demonstrar de alguma forma qual é a Mentira em que ele acredita. Pode ser feito numa grande cena ou numa sequência de cenas. O importante aqui é ganhar o coração do leitor.

No Romance Slow Burn: Além de ser as cenas nas quais você apresenta os seus personagens e suas características, pode também ser aquele momento relacionado ao que chamamos de Evento Instigante: É aquele momento em que você apresenta o potencial de conflito entre os nossos personagens, que no final acabarão se apaixonando.


5. O Mundo Normal

O Mundo Normal é um cenário, uma montagem. É onde a sua história começa, é o lugar no qual o seu personagem está inserido. Ele pode estar contente vivendo dentro dele, pode estar infeliz ou mesmo apático. Mas é neste Mundo Normal que as coisas se transformarão. Ele acaba sendo uma representação externa do mundo interior de seu personagem. No final da história, ou ele conseguirá sair daquele Mundo que para ele é destrutivo ou, se o seu Mundo Normal é um lugar saudável e apenas a visão do seu protagonista é que é distorcida, ele terá de mudar o suficiente para conseguir enxergar as coisas de um outro ângulo.

No Romance Slow Burn: O Mundo Normal de seu personagem pode ser, além do lugar físico, um cenário que o mostre em relacionamentos de apenas uma noite com muita frequência, um lugar que o torna propício a tratar o sentimento dos outros com desprezo, um cenário que o mostre miserável, querendo se manter isolado das pessoas, pelo trauma que lhe causaram no passado. Seja o que for, mostre aos leitores que o Mundo Normal é um mundo no qual ele ainda não encontrou o amor de verdade.

Vamos, agora, colocar esses elementos dentro dos três Atos de nossa história:

O Primeiro Ato
  • Cobre, aproximadamente, 25% do total de sua história;
  • Introduz os personagens importantes, os cenários, as questões e as Mentiras nas quais nosso personagem acredita;
  • Introduz o conflito de sua história com o Evento Instigante — o evento que começa a mudar a sua vida (é aqui que a primeira problemática surge entre o nosso futuro casal: ou eles se odeiam logo de cara, ou se conhecem pela primeira vez, ou descobrem que terão de fingir um falso relacionamento... Enfim, algo acontece e prepara/muda a relação dos dois);
  • É no Primeiro Ato que também encontramos o primeiro ponto da virada, que é aquele grande acontecimento que mudará, definitivamente, a vida de seu personagem, e o fará sair de seu “Mundo Normal”. É aí que começará, de fato, sua grande jornada e, no nosso caso, a sua longa caminhada até o amor. O primeiro ponto da virada acontece no final do primeiro ato e está diretamente ligado com o Evento Instigante. Por exemplo, se na sua história o Evento Instigante é uma trombada do personagem A em Personagem B na entrada da escola (o que irrita B profundamente), o primeiro ponto da virada pode ser o fato de eles descobrirem que, além de colegas de classe, terão de trabalhar juntos num projeto que durará o semestre inteiro.
O Segundo Ato
  • Cobre 50% do total de sua história;
  • Na primeira metade, mostra o personagem se imergindo, de fato, na sua nova jornada tentando reganhar o seu equilíbrio e descobrir como sobreviver no “Mundo Novo” no qual ele foi parar (aqui na nossa temática, tem a ver com aprender a se relacionar de alguma nova maneira com o outro protagonista. É aqui que eles se tornarão amigos, se já não eram antes, e perceberão gradativamente que possuem sentimentos um pelo outro. E sim, aqui poderá ser inserido diversos conflitos entre nosso casal). É na primeira metade também que conhecemos mais sobre o Antagonista do nosso personagem, com que forças “do mal” ele está lidando (note bem, esse Antagonista não precisa, necessariamente, ser uma pessoa. O Antagonista tem a ver com tudo aquilo que tem potencial para fazer com que o nosso casal não fique junto, o que inclui os seus traumas do passado e a forma como ele age e enxerga o mundo no momento presente);
  • Na metade dele podemos encontrar o Ponto Central, que é o outro ponto da virada na vida de nosso personagem; aqui há uma nova mudança de perspectiva, um momento chave de revelação na vida dele. Ele para de apenas reagir e começa a agir em favor de si mesmo. Ele ainda aceita a Mentira, mas, inconscientemente, começa a agir em harmonia com a Verdade (em outas palavras, aqui pode ser o momento no qual ele percebe que, de fato, possui sentimentos pela outra pessoa, ou percebe que sim, ele pode se abrir novamente para o amor, ou que as pessoas são capazes de amar sem enganar, de serem sinceras, de se importarem verdadeiramente, enfim, há uma gama de possibilidades, e todas essas realizações influenciarão de forma muito positiva na relação de ambos);
  • Na segunda metade do Segundo Ato, há uma forte ação do protagonista, baseada na Revelação do Ponto Central (ou seja, é aqui que comportamentos destrutivos que são regidos por conta da Mentira vão sendo deixados para trás, e nossos protagonistas vão deixar de fugir do que sentem. Eles irão, conscientemente, se aproximar mais e mais até não mais resistirem um ao outro). Há também a mostra da habilidade que o antagonista possui para derrotar os protagonistas e é onde faz-se necessário que todas as peças do quebra cabeça de nosso enredo estejam apresentadas, para que sejam colocadas no devido lugar no Terceiro Ato.
  • No fim do Segundo Ato haverá também o que chamamos de “falsa vitória” (No Romance Slow Burn, é aqui que, provavelmente, nossos pombinhos irão entregar-se ao sentimento que sentem um pelo outro pela primeira vez de maneira concreta).
O Terceiro Ato
  • Preenche os últimos 25% do total de sua história;
  • Ata as pontas soltas dos enredos menores;
  • Inicia-se com o terceiro ponto da virada (este será o momento mais baixo de seu personagem, a derrota vinda após o seu falso momento de vitória, proveniente por uma “carta na manga”, uma crise inesperada que o acomete. Claro, como você já deve estar imaginando, essa “crise inesperada” vai totalmente separar o nosso querido casal, mesmo que ele mal tenha tido tempo de ficar junto pela primeira vez. É aqui também que o “velho eu” morre, e o personagem será totalmente honesto consigo mesmo, escolhendo, de uma vez por todas, entre aquilo que ele quer e aquilo que ele precisa);
  • Possui o clímax, o ponto mais alto do conflito de sua história (uma cena, ou sequência delas, que deve mostrar a força do protagonista de encarar o conflito principal que rege a sua história num confronto decisivo — os nossos protagonistas lutarão contra todos os problemas internos e externos que os impedem de ficar juntos. No final do clímax, finalmente, o nosso casal resolve todas essas questões e consegue ficar junto, yay!);
  • Termina com a Resolução, mostrando aos leitores o novo Mundo Normal de seu personagem (sim, o momento de relaxamento, para acalmar o leitor dos eventos anteriores. Mostre o nosso casal feliz e apaixonado, bem como as conquistas que tiveram superando seus traumas pessoais e fazendo o outro uma pessoa melhor no decorrer da caminhada).

E assim, chegamos ao final do nosso esboço. Para aqueles que desejarem, aqui embaixo vocês encontrarão dois links com uma planilha contendo todos os tópicos aqui abordados, expostos de maneira mais detalhada e com fichas de perguntas para que você possa criar a sua história de Romance Slow Burn (ou qualquer outra, na verdade). No primeiro link está a planilha com um exemplo de enredo com o slow burn, criado com a ajuda e a criatividade do Beta Seikou Aori (thank you!), e na outra, a mesma planilha em branco, para que você possa fazer o download e utilizá-la para seu planejamento histórico.

Gostaria de ressaltar que os detalhes apontados dessa estrutura, bem como as fichas de perguntas contidas nas planilhas são informações retiradas do blog da escritora já mencionada anteriormente, K. M. Weiland. Eu apenas organizei tais informações dentro de uma planilha de trabalho. No site dela você encontra o assunto aqui abordado de forma muito mais minuciosa e detalhada, como também outros assuntos relacionados a este. Se você entende inglês, dê uma passadinha por lá, vale totalmente a pena. Quanto a mim, deixo aqui o meu tchauzinho e até a próxima!

Link 1 (planilha com exemplo): 
Link 2 (planilha em branco): 


Referências:

Blog da escritora K. M. Weiland:

Demais referências: 

2

Como Escrever Romance Slow Burn [01/02]

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Por: Little Girl

Você provavelmente já deve ter lido uma história na qual os protagonistas desenvolveram um relacionamento do tipo slow burn, e que levou capítulos e mais capítulos para que, finalmente, aceitassem e assumissem o sentimento que tinham um para com o outro. É por esse mesmo motivo — a lenta construção do relacionamento — que existem os que amam e também os que odeiam esse tipo de romance. Para mim, histórias com slow burn são, definitivamente, muito especiais, e é por isso que estou aqui para conversar com vocês um pouquinho a respeito desse tema.

Antes, porém, de falar sobre como escrever tal gênero, vamos primeiro delinear algumas ideias, para o caso de alguém ainda estar perdido no meio da conversa.

Slow Burn é um termo inglês que ao pé da letra significa algo como “queima lenta”, o popular “fogo brando” no nosso bom e velho português. Esse termo serve para designar algo que acontece de forma devagar, lenta, como quando a gente decide fazer um pudim, sabe? O Urban Dictionary define esse termo como sendo uma atração por alguém, que não é instantânea, mas cresce com o passar do tempo; o processo de se tornar atraído por alguém num período de tempo. Trocando em miúdos, o romance slow burn é aquela história na qual personagem A mais personagem B demoram a se apaixonar, ou ao menos reconhecer que estão apaixonados, e demoram mais ainda a ficarem, de fato, juntos. A aproximação entre eles acontece de forma lenta, com bastante espaço para o foco nas questões intrínsecas de cada personagem.

Se você analisar as histórias que já leu pertencentes a este estilo, são grandes as chances de que elas se encaixem numa desses três casos:

  • Caso A: O caso que evolui de “se odeiam” para “amigos” e, finamente, para “se amam”;
  • Caso B: Os amigos que, por conta de uma “problemática inesperada”, acabam desenvolvendo sentimentos românticos um pelo outro (ou tendo coragem de assumir eventuais sentimentos que nunca foram levados adiante);
  • Caso C: Nem amigos nem inimigos, mas com os polêmicos clichês: namoro de mentira e o caso das “amizades” com benefícios.

Dá para perceber que todos os personagens possuem, paralelamente ao desenvolvimento do relacionamento entre ambos, conflitos emocionais e pessoais. Tais conflitos influenciam, na maioria das vezes, de maneira muito grande e prejudicial no desenvolvimento de um possível relacionamento amoroso. É também por estes motivos que eles demoram a aceitar a atração e o sentimento que os assolam. 

Outra coisa importante de ressaltar e que deve estar presente praticamente durante toda a história é a chamada “tensão sexual” entre os personagens (toques, olhares disfarçados, provocações, flertes), pois ela é o que, junto com o enredo, fará com que o leitor continue interessado capítulo após capítulo em saber o que acontecerá com o relacionamento dos protagonistas — quando eles, por fim, irão resolver as suas pendências e aceitarem o amor que sentem.

Agora que já foram citados os principais elementos que devem estar contidos num romance slow burn, o que falta é estabelecermos uma sequência lógica para a construção da história. Embora mil e um tipos de enredos diferentes possam ser construídos com base neste gênero e nos casos acima citados, quase todos eles poderão seguir o mesmo passo-a-passo para atingirem o produto final.

O que abordaremos no post de hoje é um modo mais simples e intuitivo de organizarmos a sequência de acontecimentos desse tipo de romance, algo prático que pode ser usado para o caso de você ser uma daquelas pessoas que não gosta de algo extremamente metódico. Entretanto, para todos aqueles que querem se aprofundar um pouco mais no assunto, daqui a algumas semanas daremos continuação a esta postagem. Falaremos sobre como escrever o slow burn inserindo-o no arco histórico de um personagem.

Por hora, vamos ao que interessa!

Assim como a pessoa que passa pela perda de um ente querido tem de lidar com as fases do luto, a pessoa que passa pelo término de um relacionamento também acaba passando por um processo semelhante, e, por mais estranho que pareça, são nessas fases que iremos nos basear para seguir uma sequência lógica dentro da construção histórica. A razão pela qual podemos nos basear em tais estágios é bem simples: grandes realizações ou descobertas são difíceis de serem aceitas por nós, seres humanos. E até chegarmos no estágio pleno onde nos permitimos demonstrar aquilo que sentimos, o nosso corpo e nossa mente irão desenvolver uma forma natural de lidar com tamanho estresse, até que tenhamos assimilado e aceitado toda a situação, para podermos seguir em frente.

Bem, para que o drama todo do slow burn entre em cena, é preciso que você já tenha estabelecido os elementos básicos e iniciais da sua história — personagens, seus passados, enredo, a forma como se aproximarão ou a problemática que mudará o tipo de relacionamento que já possuem — e a tenha conduzido até o ponto onde nos deparamos com o primeiro dos sete estágios que os personagens deverão enfrentar.


Estágio 1 — Choque

O choque é uma reação natural que o nosso corpo experimenta quando enfrentamos um trauma físico ou emocional muito grande. É o momento em que você se sente atônito e até mesmo fora da realidade. Há muita confusão nesse primeiro estágio, perda de sono, e tudo acaba sendo um aviso do corpo e da mente, dizendo que não quer lidar com a situação naquele exato momento. Na nossa história, o choque é o exato momento no qual os personagens percebem que, sim, eles possuem sentimentos/gostam/estão apaixonados/amam a outra pessoa. Chame do que quiser. Mas tenha em mente que este é o momento em que o circo realmente começa a pegar fogo, e eles percebem que sim, o sentimento existe, e é muito real. 


Estágio 2 — Negação

A negação é a rejeição da realidade. Nesse estágio nossos personagens terão o lema de que, se eles não aceitarem o sentimento, logo aquilo que estão sentindo não é real. Aqui é o momento no qual eles vão tentar seguir a vida normalmente, como se nada de mais tivesse acontecido, como se eles não tivessem chegado à realização que lhes tirou o sono e os fez perder a respiração por alguns instantes.

Como aprendemos cedo na vida, a negação não funciona para sempre.


Os próximos três estágios serão listados na sequência em que se apresentam originalmente, contudo, você pode adaptar a ordem deles de acordo com as necessidades do seu enredo.


Estágio 3 — Isolamento

Uma vez que seus personagens tenham caído em si e assumido que aquilo que sentem é real, chega o momento no qual você terá que fazê-los lidar com a nova informação. Este estágio caracteriza-se como isolamento porque aqui os nossos personagens terão de gastar um certo tempo recordando situações, palavras que disseram, tentando entender quando o sentimento começou a surgir, os eventos atrelados ao desenvolvimento do relacionamento. É o momento também de refletir sobre a outra pessoa, suas qualidades e defeitos, e o fato de que, apesar dos pesares, seus personagens estão completamente imersos um no outro. O caso é que, naturalmente, ter de pensar sobre a outra pessoa pode fazer com que seu personagem tenha de se afastar dela por um curto período de tempo. Aqui pode ser que ele evite encontrar a pessoa algumas vezes, ou no mínimo, comece a agir de maneira estranha quando está com ela — distante, apático, até mesmo rude, dependendo da personalidade com a qual você o construiu.


Estágio 4 — Raiva

Neste estágio, seus personagens não serão mostrados tão pensativos, refletindo, absortos na própria mente. Aqui é o momento no qual eles procuração alguma coisa para culpar o fato de estarem da cabeça aos pés apaixonados pela outra pessoa. A raiva de um não precisa, necessariamente, ser mostrada para o outro, embora possa acontecer. Mas esta ira pode acontecer nas conversas em voz alta consigo mesmo. Ou pode ser um bom momento para fazer com que o protagonista revele para um personagem secundário da história (um amigo, irmão, conselheiro, etc.) os sentimentos que estão há um bom tempo guardados. É o momento no qual ele pode extravasar para alguém a raiva pelo fato de que as coisas, talvez, não tenham acontecido da maneira como tenha planejado em sua vida.


Estágio 5 — Barganha

Barganha é o ato de realizar um negócio de maneira lícita, ou mais comumente, ilícita. A barganha é o momento em que você deverá fazer com que os seus personagens ofereçam algo em troca de paz mental, em troca de, talvez, terem um caminho de volta do sentimento que sentem. Uma última tentativa para tentarem não se render ao sentimento e estragar a construída amizade, para não se envolverem e terem o coração partido futuramente, ou até mesmo uma tentativa de auto absolvição do fato de estarem apaixonados por alguém que, por alguma razão, pensam que não deveriam.

A barganha pode ser inserida dentro da história das mais diversas formas, tudo vai depender em qual tipo de enredo você escolheu se aventurar: Se eu procurar outro alguém, talvez eu esqueça aquela pessoa; se eu apresentar alguém para aquela pessoa, serei obrigado a esquecê-la; se eu passar mais tempo me ocupando com coisas mais importantes, pode ser que eu pare de sentir o que estou sentindo. Em alguns casos a barganha pode atingir um estágio tão estúpido que seu personagem poderá até mesmo pensar que, se ele passar mais tempo com a pessoa que lhe ocupa a mente, até que ele se canse, pode ser que esse sentimento passe e as coisas voltem a ser como eram antes. Sim, é estúpido. Mas é você quem manda na história e, se você quiser fazer o seu personagem ter um momento energúmeno... bem, sinta-se livre para isso...

Os dois últimos estágios acabam por culminar no clímax da sua história, e são, portanto, os momentos mais importantes do enredo, e que devem ser tratados com muito cuidado. Durante os estágios anteriores, é preciso que você tenha em mente que, enquanto toda essa “crise existencial” está acontecendo com seus personagens, a relação entre eles continua, paralelamente, prosseguindo e evoluindo. De fato, é a evolução de tal relacionamento que faz com que eles passem de um estágio para o outro. Entretanto, até o início da barganha, nada realmente acontece entre eles, tudo ainda deve estar no meio da linha que separa o romance da amizade. Já no final da fase da barganha e antes do início do sexto estágio, é preciso que toda a tensão construída até este momento tenha, finalmente, a sua recompensa. Personagem A e personagem B finalmente admitem um para o outro o sentimento, mesmo que apenas de maneira prática em vez de verbalizada. A intensidade dessa demonstração é você quem deverá ditar, mas é aqui que, pela primeira vez, a tensão deverá explodir, e a linha que limita a amizade e o romance deverá ser transpassada.

Após este acontecimento, você deverá escolher se dá algum momento de paz para os nossos “sobreviventes” (alguns capítulos, ou umas mil e poucas palavras), ou se parte sem dó e sem piedade diretamente para o nosso penúltimo estágio antes da resolução final.


Estágio 6 — Depressão

Você deve estar se perguntando, “Mas por que raios eu tenho que fazer os meus personagens passarem pelo estágio da depressão? Já não foi sofrimento suficiente eles terem de passar por todos os estágios anteriores até conseguirem estar juntos?” A verdade é que, sim, eu concordo com você, já foi uma novela mexicana inteira para que algo concreto realmente acontecesse. Não obstante, é preciso lembrar que haverá elementos da história pessoal de cada um dos protagonistas que não estará, de todo, resolvida. É aqui que você deverá colocar em cena os conflitos que ainda faltam ser resolvidos, para que, só então, seus personagens superem seus traumas, seus medos, seu passado, enfim, aquilo que no princípio foi o motivo que os fizeram não querer se apaixonar pela outra pessoa. Esse conflito pode ser uma verdade que deveria ter sido contada antes, pode ser um parente que não aceita o relacionamento em questão, pode ser simplesmente o fato de eles acharem que o pior erro que fizeram foi avançar a linha da amizade. Você tem que fazê-los voltar à estaca zero, fazê-los achar que não, eles não serão uma equação com resultado positivo, e que são melhores sozinhos, ou simplesmente como amigos.

Como está bem claro com todo este conflito em questão, a depressão é definida, então, como o momento no qual eles sofrerão por terem acreditado numa ilusão, em algo que estava fadado ao fracasso. Surge a frustração por saberem que era algo que deveriam evitar para não sofrerem, mas que no fim, acabaram sofrendo, de qualquer forma. Um afastamento aqui é inevitável, seja este decidido por ambos os lados ou apenas por um. O importante é ter em mente que uma das partes deverá ser aquela que realizará que o amor, no final das contas, vale à pena a tentativa, e dará o primeiro passo para a reconciliação.


Estágio 7 — Aceitação

A aceitação é o último estágio. O estágio que faz com que, como dito anteriormente, todos os outros estágios tenham valido à pena. Nesse estágio, os conflitos mal resolvidos, seja por falta de comunicação, seja por um antagonista, seja apenas pela negação do sentimento, são, por fim, resolvidos, e tanto um personagem como o outro se perdoam por quaisquer erros que possam ter ocorrido durante a caminhada, e acima de tudo, aceitam-se como são, apesar das imperfeições que possuem. É nesta última fase que eles podem, finalmente, assumir um relacionamento, e seguir em frente com a vida. Erros passados, amores que não deram certo, tudo é deixado para trás, como uma lembrança longínqua. O sentimento de alívio e alegria deve ser evidente, e o amor que um sente pelo outro pode e deve ser demonstrado de maneira plena. E, claro, um epílogo açucarado é sempre muito bem-vindo pela maioria dos leitores.

Sim, a maior parte da história será sobre conflitos e a resolução destes, conflitos internos e conflitos externos, todos a serem superados. Mas, se pararmos para pensar, conflitos existem em todos os tipos de histórias, o que não significa que, enquanto o nosso querido “OTP” não resolve todas questões que são necessárias para que eles se amem e sejam felizes, não se possa ter todos aqueles ingredientes que nos fazem querer ler mais e mais — isto é, provocações, flertes, sorrisos, brincadeiras, confidências, abraços, amizade.

A gente encerra o método de escrita baseado nos sete estágios do término de um relacionamento por aqui, mas o assunto ainda continua em breve. O próximo post tratará da construção da história não apenas a partir do momento em que os personagens se dão conta de que possuem sentimentos um pelo outro, mas tratará também de todo o seu início, incluindo os elementos que devem ser decididos antes mesmo do primeiro capítulo.  Enquanto isso, por que não tentar planejar uma boa história de romance slow burn?


Referências:
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As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana