A representação feminina nas histórias, parte 2

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Senhorita Elllie
Começando a segunda parte do nosso artigo sobre a representação feminina nas histórias, vou abordar, dessa vez, o teste de bechdel, a sexualização das mulheres nas histórias de fantasia e também o desenvolvimento de personagens em cima de visões estereotipadas de mundo. Novamente, gostaria de lembrar que a sua história está sob o seu controle e nada do que está aqui são regras, mas que também é sua, e unicamente sua, a responsabilidade pelo impacto gerado pelas suas palavras, sejam elas negativas ou positivas.
Como prometido no último post, falarei um pouco sobre o teste de Bechdel, a beleza excessiva de nossos protagonistas e sobre a polarização da personalidade das mulheres na fantasia.
Teste de Bechdel — O teste de Bechdel é atribuído à cartunista Alison Bechdel, que o apresentou em uma de suas tiras na década de oitenta. Na tira, a personagem dizia que só assistia a um filme se ele tivesse, em seu elenco, duas personagens mulheres que conversassem uma com a outra sobre qualquer coisa que não fosse um homem. Parece simples, não é? Mas a verdade é que a maior parte dos grandes sucessos do cinema não cumpre esses requisitos.
Obviamente, sendo um teste pensado para mídias visuais (inicialmente apenas filmes, logo depois séries), não se deve ser literal ao aplicar o Bechdel para obras literárias. Nos filmes, tem-se uma perspectiva ampla de todo o cenário e vários pontos de vista são abordados simultaneamente, enquanto, nos livros, às vezes tem-se um recorte restrito dos acontecimentos (como em narrações em primeira pessoa, onde tudo depende do que o protagonista vê) ou um cenário que não favorece o desenvolvimento de personagens secundários.
Não dá para exigir, por exemplo, que o teste de Bechdel seja seguido à risca numa história narrada em primeira pessoa por um homem que mora num colégio interno masculino, mas dá para problematizar a falta desses critérios em histórias onde temos um elenco mais amplo, como, por exemplo, colegiais ou fantasia, e é aí que quero chegar com toda essa ladainha.
Colegiais predominantemente apresentam uma protagonista mulher, o que é ótimo, mas falham na hora de fazê-la interagir com o entorno. Tirando o par romântico da protagonista, muitas vezes não há muitas falas com o resto dos personagens, e, quando há, elas geralmente são sobre a relação da moça do seu par romântico. Meninas, como todas as outras pessoas, possuem sonhos — uma faculdade, um bom emprego, uma vida independente — e não ver esse recorte da vida das protagonistas pode torná-las insossas aos olhos do público. Um exemplo disso é Bella Swan; em certos momentos dos livros, o nome, a menção ao nome ou a presença (implícita ou explícita) de Edward chegavam a dominar todos os diálogos. Isso não parece assustador?
Em livros de fantasia, temos uma parte ainda mais complicada do problema: não há mulheres, muitas vezes, e, quando há, elas aparecem em formas pré-definidas estereotipadas. Geralmente na forma de alguma deusa, de alguma feiticeira, de alguém que poderá dar o suporte adequado ao protagonista para conseguir seguir em sua jornada, da mulher que morre para motivá-lo ao seu fim; raramente como personagens ativas que possuem a sua própria história e capacidade para fazer a diferença no enredo. É irritante ler um livro de fantasia e perceber que, no meio de tantos homens, há apenas uma mulher com nome, e que ela não muda absolutamente nada na história, que a mulher passa o livro inteiro agindo em função dos homens que estão no seu entorno, ou, pior de tudo, que a existência da moça no livro tem a única função de mostrar uma cena chocante de estupro ou assassinato — que existe pelo único motivo de chocar.
Não dá para criar um teste de Bechdel com critérios para a literatura, sendo ela uma mídia muito diversificada, mas pensar nos critérios usados para o cinema já é o suficiente para que reflitamos a respeito. Há mulheres lendo esses livros; naturalmente, elas vão esperar que suas representações estejam no mínimo decentes. O que leva aos próximos pontos.



A Beleza Excessiva dos Protagonistas — Faça um exercício mental e lembre-se: das fics e livros que você já leu, quantos protagonistas eram gordos? Quantos, em suas descrições, poderiam ser lidos como feios? Poucos? Nenhum?
Não há ninguém feio em filmes, livros, fics, séries, sejam esses personagens femininos ou masculinos. O máximo que existe são pessoas lidas como "comuns" e quase nunca há uma pessoa gorda — em livros e fanfics principalmente. Contudo, a vida real é bem diferente da realidade mostrada nessas histórias; não é preciso ir muito longe para encontrar pessoas que se diferem do padrão lido como bonito para a mídia. Elas existem, claro, elas consomem esses livros, elas sentem falta de personagens que representem seu tipo corporal, e eles continuam não existindo.
Interessantemente, pode-se ver esse tipo de problema até de livros vindos de autores cujo corpo difere-se muito dos padrões midiáticos. Cassandra Clare, autora da série Os Instrumentos Mortais, é uma mulher gorda, e nenhum de seus protagonistas foge da definição de beleza clássica. Todos são magros. Foram precisos três livros para que aparecesse uma negra de importância. Era de se esperar que Cassandra, por estar envolvida com o fato de não se encaixar no biotipo magro, quisesse trabalhar isso em suas histórias, mas ela não fez. Por quê?
Não há nenhum estudo respondendo a essa questão: por que homens e mulheres negros e brancos, altos e baixos, magros e gordos, continuam escrevendo grupos de protagonistas com, essencialmente, as mesmas características. Mas há teorias, e uma bem aceita é o aquela que defende o fato que você sempre escreve sobre aquilo que você quer ser; se você não considera bonito, vai escrever protagonistas lindos, com personalidades perfeitas, com corpos de modelo. Não é sua culpa você querer escrever protagonistas que se encaixem no padrão dos seus sonhos, mas vale a pena se perguntar: por que esse é o padrão dos seus sonhos?
Este não é um artigo sobre mídia e a influência da propaganda; não vou me delongar nisso. Contudo, é interessante você notar que, ao escrever um personagem que é diferente do que a gente vê sempre, você vai estar mostrando para pessoas com aquela característica que aquilo também diz a respeito delas. Isso é uma injeção de autoestima. Pessoas gordas ou feias podem fazer exatamente as mesmas coisas que as pessoas ditas "bonitas", inclusive amar e ser amadas.



A Polarização das Mulheres na Fantasia divide-se em sexualização e "puerização".
Sexualização - Pense em um joguinho situado em um mundo de fantasia qualquer. Não vou citar nomes, não é necessário, você vai conseguir se lembrar de pelo menos um jogo. Pense nas armaduras dos homens. Pense nas armaduras das mulheres. Pronto. Você está diante da sexualização das mulheres na fantasia.
Um jogo não é um livro, óbvio; há claras diferenças em muitos aspectos, mas não tanto no que tange à representação das mulheres. É comum aparecer em histórias uma deusa do mal que, coincidentemente, é também muito sexy, ou uma bruxa do mal que também é, coincidentemente, muito sexy. É comum associar a sensualidade à maldade nas mulheres.
Esse é um pensamento antigo; a Igreja já se baseava nele para punir mulheres lá na época da Inquisição e ver que ainda temos sinais disso nas histórias de fantasia atuais mostra como e em que pontos houve uma evolução. Desenvolver as mulheres baseado apenas em sua sensualidade é reduzi-las à sua aparência, e isso chega a ser revoltante. Você não é má apenas por ser sensual; você não é uma maldita apenas por ser bonita.


Puerização - Se a mulher não está representada como uma femme fatale, ela é geralmente uma doce donzela pueril. Esta mulher sempre tem coisas bonitas para dizer ao protagonista, coisas sobre perdão, espírito. Ela não sente raiva, a não ser quando o protagonista está envolvido; ela não guarda mágoas, fala sempre manso, é suave. De acordo com os padrões da época da Inquisição, ela é a esposa perfeita.


Assim sendo, temos um padrão onde, na presença de sensualidade, a mulher tem um componente de perigo, enquanto, na ausência de sensualidade, ganha um ar quase angelical. Os homens, nas histórias, não são definidos por esse tipo de comportamento; eles fazem sexo, seduzem mulheres, matam, torturam e não são tachados pela irritante linha do bem e do mal. Por que os homens não têm sua personalidade definida pela sua vida sexual? Por que as mulheres têm?


Isso pode parecer taxativo: tantas regras para escrever uma personagem feminina, soa até como se eu estivesse podando a criatividade de todos os possíveis escritores. Depois de todos esses clichês, pode-se perguntar: como escrever uma personagem feminina?
Simples. Escreve-a como se escreve uma pessoa normal, porque mulheres são pessoas normais. Dê à sua personagem feminina uma família, amigos, sonhos, perspectivas, opiniões, um passado, defeitos, qualidades, erros. Não defina o que ela é apenas porque ela é bonita,ou sexy. Apesar do senso comum, ela não precisa ser salva sempre, ela pode se virar sozinha, e ela pode também salvar alguém; ela pode ser forte, ela pode ser fraca, ela pode ser chata ou legal, mas isso tem que ser parte do que ela é. Desenvolva-a como você desenvolve seus personagens masculinos.
Não pode ser assim tão difícil: não somos lá tão diferentes, somos?
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Erros comuns em cenas de sexo – Parte 3

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Por: CowardMontblanc
Perfil: https://fanfiction.com.br/u/232980/

Boatos diziam que eu, tia Coward, fugi e perdi minha conexão com a internet para sempre. Esses boatos estavam errados.

Porque enfim, depois de muito tempo, eu estou de volta com a parte final da série de posts sobre erros comuns nas cenas de sexo. Acredito que você se lembra dos dois primeiros posts, certo? Se não, sinta-se livre para reler! O primeiro se trata de erros na narração e falas, e o segundo sobre erros de anatomia. E nesse post, que será o último da série, vamos falar de erros que eu irei chamar de erros conceituais.

Mas o que seriam erros conceituais, exatamente?

Para fins meramente explicativos, esses são os erros que não tem tanto a ver com a narração em si ou com o que está acontecendo anatomicamente durante uma cena de sexo. Muitas vezes eles estão ligados ao conceito da cena, e principalmente do que está se passando na cabeça de quem está escrevendo, ou quando deveria ser levado em conta e não é. São coisas que estão mais ligadas com a ideia por trás da cena do que com o que está acontecendo em si.

Muitas vezes, cenas eróticas perdem todo o seu potencial pelo fato de que se baseiam nesses erros. A escrita pode ser boa, mas de nada adianta isso se ela cair num desses erros que o post vai tratar. Na verdade, eu já vi muitos bons escritores caindo em pelo menos um deles.

Vamos ver quais são?

  1. Pensar que escrever cenas de primeira vez é mais fácil

Chegou a hora. O casal daquela fanfic linda e enorme que você está lendo finalmente vai ter aquele momento super-romântico e especial. Seu coração está quase pulando pela boca, afinal, você sonha com isso desde que percebeu que eles tem química e você acompanhou cada troca de olhares, o primeiro beijo, o primeiro encontro...

Então você chega na primeira vez deles. Os personagens são inexperientes e vão descobrir tudo juntos… Ou deveriam, porque quando você lê a cena, percebe que eles juntos na cama são capazes de fazer qualquer ator ou atriz pornô corar de vergonha e ficar verde de inveja com suas incríveis habilidades e confiança, além de já saberem todos os pontos fracos e fetiches secretos um do outro.

Não é preciso pensar muito pra entender que na realidade é bem diferente, não é? Por mais que uma fanfic seja uma fantasia, escrever cenas de primeira vez são na verdade bem mais complicadas do que as que envolvem personagens mais experientes. E quando você escreve uma cena assim totalmente perfeita, sem envolver pelo menos um pouco de timidez por parte dos personagens, pequenos erros no meio do caminho e outras trapalhadas, toda e qualquer suspensão de descrença se vai. É difícil acreditar que os personagens são inexperientes quando eles já sabem tudo que deveriam aprender com o passar do tempo, especialmente quando as partes são jovens.

Se você quer mais liberdade para fazer cenas que envolvem alguns fetiches ou posições mais incomuns, é melhor deixar isso para um casal mais experiente ou uma cena futura. Ninguém começa sabendo tudo, e por mais que seja um pouco mais complicado narrar cenas eróticas com personagens inexperientes, a experiência de narrar ou ler sobre as primeiras descobertas de um casal ou personagem é com certeza bastante gratificante!

  1. Fazer todas as cenas com o mesmo “roteiro”

A fanfic é bem escrita e tem um enredo incrível! Você começou a ler algumas horas mais cedo e não consegue mais parar. Você passou pela primeira cena de sexo, e ela foi muito bem escrita e divertida, sem nada de errado. Feliz, você continua a leitura. E a próxima cena erótica tem basicamente os mesmos acontecimentos da primeira. E a próxima… E a próxima… E todas as seguintes.

Todas as cenas são iguais, e você começa a pular porque já leu isso antes.

Sexo na vida real nunca é sempre igual, mesmo quando ocorre com as mesmas pessoas num mesmo lugar. Por isso mesmo, não precisa ser sempre igual na ficção. Isso é algo que parece ser bem simples, até, mas infelizmente sexo repetitivo é algo muito fácil de se encontrar. Não tenha medo de tentar coisas novas! Os leitores gostam de variedade, e os personagens também.

  1. Achar que a cena não é sexo “de verdade” por não ter penetração

Os personagens podem fazer tudo. Podem tirar as roupas, podem se pegar em todos os lugares possíveis, e realizar mil e uma acrobacias na cama. Porém, enquanto não houver penetração, não é sexo.

Nem preciso dizer muita coisa aqui. Sexo não é apenas penetração. Outras espécies de carícias que seus personagens podem trocar podem e devem ser consideradas sexuais, contanto que tenham esse intuito. Uma cena de oral é uma cena de sexo, assim como uma de masturbação mútua e tantos outros derivados que se podem imaginar. Não se sinta obrigado a colocar penetração numa cena erótica para que ela seja considerada “de verdade”, porque se tem atos sexuais, então já é. Além disso, na vida real muitas vezes pessoas fazem sexo sem penetração e ficam satisfeitas mesmo assim.

Sem falar que alguns casais nem praticam necessariamente o sexo com penetração. Basta olhar para os casais lésbicos. A não ser que uma das mulheres seja trans, elas só podem praticar o sexo com penetração com o auxílio de brinquedos, e não é sempre que elas vão usar isso, não é verdade?

  1. Como assim ninguém engravidou até agora?

A fanfic se passa no mundo atual, com toda a tecnologia que nós temos. Ainda assim, o casal fez sexo inúmeras vezes, nunca usou uma camisinha no ato e mesmo assim a menina nunca engravidou e ninguém nunca pegou uma doença sexualmente transmissível. Como? Pura conveniência para a trama.

É claro que por ser ficção, você tem o total controle de saber quando alguém irá engravidar ou pegar uma doença. Ainda assim, ver os personagens fazendo sexo a torto e a direito sem nenhuma proteção e saindo sem nenhuma consequência física depois acaba com a descrença de quem está lendo. Não é difícil falar de métodos contraceptivos, basta escrever uma linha ou duas sobre como Fulaninha toma anticoncepcional ou como Fulaninho pegou a camisinha e colocou antes do ato. É um detalhe muito simples, mas faz bastante diferença, e falar sobre essas coisas apenas serve pra tornar a cena mais verossímil.

Se seu plano é fazer alguém engravidar, porém, pode deixar de lado. Ou então caso a sua história se passe em tempos antigos ou num universo onde esses métodos não existem ou são pouco utilizados. Afinal, camisinhas modernas com certeza não devem existir na Terra Média.

  1. Tratar os personagens como bonecos infláveis na hora do sexo

Muitas vezes em cenas eróticas quem está escrevendo se foca tanto em descrever direito o que está acontecendo no aspecto físico que se esquece completamente de narrar o psicológico dos personagens. Então, quando alguém lê a cena, eles não parecem pessoas, e sim bonecos infláveis sem personalidade ou sentimentos que mais parecem estar lá para satisfazer as fantasias de quem escreveu.

Sexo não é apenas algo físico, pois envolve muitos sentimentos. Não é apenas pelo fato de que os personagens estão se agarrando que eles vão deixar de pensar. Afinal, se eles estão fazendo sexo, eles devem nutrir sentimentos um pelo outro e é bem provável que acontecimentos anteriores acabou levando-os para esse ato.

Não deixe os sentimentos e pensamentos de seus personagens de lado nessas horas! Narrar o que se passa na mente deles não é uma distração para o leitor, e sim uma adição. Saber o que cada um está pensando e sentindo ajuda a cena a ter mais sentido, e faz com que a pessoa que está lendo se conecte mais com o momento e com o casal.

As melhores cenas eróticas não se apoiam apenas em boas descrições físicas, mas também das psicológicas. Sentimentos tornam tudo mais especial e inesquecível para quem está lendo, além de darem aquele diferencial para cada cena. O amor e carinho nutridos pelas partes, o nervosismo de uma primeira vez para aquele personagem inexperiente, o medo de um casal ser pego em flagrante num relacionamento proibido… Narre isso tudo e mais.

  1. BDSM não é como em 50 Tons de Cinza

Desde que 50 Tons de Cinza foi publicado, muitas fanfics e livros começaram a falar mais sobre o incrível e curioso mundo do BDSM. E por mais que isso seja interessante, muitas pessoas inventam de escrever sobre BDSM baseando-se apenas no que está na série 50 Tons, que só trata da ponta do iceberg e contém uma série de informações erradas; ou então nem pesquisam e usam apenas de clichês disseminados pela cultura pop, que não trata o tema com o maior respeito do mundo.

Como o conteúdo desse post se trata de cenas eróticas em geral e não apenas de BDSM, vou aproveitar aqui apenas para dar algumas dicas, e não um manual. A mais importante é que, se você pretende escrever sobre o tema, pesquise muito. Existem milhares de sites e artigos sobre BDSM escritos por pessoas que praticam isso nas suas vidas, e que cobrem desde as coisas mais básicas como os papéis de dominador e submisso e vão até as mais específicas, como informações de segurança em relação a algumas práticas. E que fonte melhor para saber como acontece na prática do que lendo sobre o assunto a partir do ponto de vista de quem possui a experiência?

Outra coisa importante é saber que tudo no BDSM deve ser consentido entre as partes. É muito comum que elas conversem sobre o que pretendem fazer antes de cada sessão, e muitas vezes isso ajuda na preparação do que for necessário. É um ato de confiança e respeito. Além disso, existe a safeword, que é uma palavra combinada que pode ser dita por qualquer uma das partes a qualquer momento durante a sessão por qualquer motivo, e assim que isso acontece, é preciso parar com o que se está fazendo.

Por último, existe uma coisa chamada aftercare, que acontece logo após o fim de cada sessão, onde as partes cuidam uma da outra da maneira que for necessária. Pode ser com abraços, preparando um banho, dando água ou alguma coisa para comer, enfim. É um momento para relaxar e para as partes se apoiarem física e psicologicamente, lembrando uma a outra que está tudo bem e que agora que tudo acabou, elas podem voltar a agir normalmente.

  1. De repente, o OOC sem explicação

A fanfic estava correndo muito bem. A história estava fluindo, a leitura estava harmoniosa e todo mundo estava agindo de acordo com o esperado… Até que de repente aquele casal começou a trocar uns beijinhos ali, foram ao quarto e depois tudo virou uma bagunça só. Sem motivo algum, aquele garoto tímido passou a soltar falas dignas de um filme pornográfico, e aquela moça extrovertida e que vive flertando com os garotos fica toda tímida, coradinha e mal consegue falar sem gaguejar. Aqueles personagens que você conhecia viraram pessoas completamente diferentes sem a menor explicação para tal.

O problema aqui, obviamente, não é a mudança na personalidade. Não é porque alguém age de uma maneira publicamente que ela vai continuar agindo da mesma forma privadamente. O que não pode acontecer é faltar explicação para tal, e a mudança acontecer de uma maneira muito brusca. Talvez os seus personagens estão encenando papéis, talvez estejam praticando BDSM, beberam um pouco e se soltaram ou simplesmente se sentem mais à vontade sozinhos porque se conhecem há tempos. Contanto que esteja bem explicado no texto, está valendo.

  1. Estupro não é uma forma de conquista!

Esse erro aqui é, sem sombra de dúvidas, o mais sério de todos os que estão sendo tratados nesse post, e infelizmente é algo fácil de se achar por aí não apenas em fanfics, como algumas vezes em livros. Geralmente a mocinha ou mocinho sofre da violência sexual e acaba se apaixonando por quem fez isso depois. Não há raiva, dor ou trauma, mesmo quando o ato não foi consentido. E muitas vezes o casal acaba feliz para sempre, seja com ou sem outras formas de abuso sexual depois.

Isso está erradíssimo. O estupro além de ser um crime (e hediondo segundo as leis brasileiras) é um ato que acaba causando danos terríveis para a vítima. Na grande maioria das vezes ela vai se sentir culpada pelo ocorrido, vai se sentir suja, e sua autoestima e confiança diminuem muito. Ela também não vai passar a gostar de quem a abusou, pelo contrário: ela vai sentir nojo, ódio, medo e coisas negativas. Não é incomum que ela acabe ficando com ansiedade e depressão derivados desse ato.

Estupro não é um sexo mais intenso ou BDSM, pois nesses dois casos ainda há o consentimento de quem está participando. Estupro é o ato sexual não consentido, que acaba causando sérios danos psicológicos para a vítima. Não é algo bonito ou romântico, e não é algo que pode ser deixado de lado. Além disso, estupro não é apenas a penetração forçada: nosso próprio Código Penal compreende como sendo qualquer ato sexual não consentido feito a partir de violência ou grave ameaça.

Você pode tratar sobre o tema na sua história, mas faça com o devido respeito. Estupro é um crime muito sério e suas consequências também. Se você quer mesmo falar sobre isso, fale, mas não se esqueça de levar em conta o fato de que não é uma coisa bonita. Porém, se você quer escrever uma cena de sexo mais “pesada” sem ir pra esse lado, faça os personagens consentirem. E não se esqueça de que narrar uma cena erótica na qual os personagens estão consentindo e felizes é muito mais romântico e bonito do que narrar uma onde uma das partes não quer seguir com o ato ou fazer algo específico.

  1. Escrever sexo só como forma de atrair leitores

Sim, tem gente que realmente faz isso. Mesmo quando não querem ou quando não vai agregar nada para a história, elas escrevem cenas de sexo para atrair leitores. Afinal, sexo vende. Ainda assim, ninguém deve se forçar a escrever o que não quer, especialmente se isso for algo que te deixe desconfortável.

Não é todo mundo que se sente bem narrando cenas eróticas, assim como existem pessoas que não se dão bem com comédia, drama ou terror. Todo escritor tem seus pontos fortes e fracos, e sabe o que gosta ou não de escrever. Além disso, quando você se força a escrever o que não gosta, o resultado geralmente não é muito bom. É melhor você escrever sobre o que realmente gosta, assim a sua escrita vai brilhar mais.

É claro, se você for iniciante na escrita erótica, é normal sentir uma certa vergonha e hesitação. Isso acontece com qualquer gênero quando você não tem experiência, e quanto mais você pratica, mais confiante você vai estar. Porém, se você realmente se sentir desconfortável e não achar que é algo que sirva pra você, tudo bem!

Sua história não precisa de cenas de sexo para ser boa, e você pode escrever muito bem sem colocar sexo no meio. Lembre-se que apenas você pode ditar o que vai ou não acontecer na sua história, então escreva o que lhe agrade em primeiro lugar. Acredite, seus leitores vão saber ver o carinho que você investiu para contar aquela história que você ama.

E ficamos por aqui. Essa terceira parte ficou enorme, não é mesmo? Ainda assim, acredito que está tudo bem explicado, e eu espero que esse artigo lhe sirva de ajuda!

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BetaCast #8 - Preconceito Literário

quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Por: Salow (Igor)

Olá, olá, seus cheirosos! O cast da família brasileira veio aqui falar sobre preconceito literário, então prepare-se para choro e sangue! Segue o bonde: Salow, Giulia, Mei, Gabriela, Elton e Ary. Editora bafo: Helen Corrêa.

Aviso: O BetaCast vai ter férias nesse fim de ano, ou seja, só nos veremos agora em 2016! :c Sintam saudades e mandem sugestões. Byeeeeee!


Se não conseguir acessar o player, clique aqui.
Clique em salvar como para baixar.

Playlist:
Applause – Lady Gaga

I'm In Love With a Monster – Fifith Harmony
XO – John Mayer
Royals - Lorde
Sugar – Maroon 5
No Good For You – Meghan Trainor
Classic - MKTO
Baby Come Back – versão No Mercy
Steal My Girl – versão “Hearts and Colors”
Let Her Go - Passenger
Rude -MAGIC
Blank Space – Taylor Swift
Vindicated – Dashboard Confessional
What Is Love – Janelle Monáe
I Do – Ellen Once Again
My Selfish Heart – Meghan Trainor
 
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Resenha: Namorados por Coincidência

sexta-feira, 9 de outubro de 2015


LIMA, Taty - Namorados por Coincidência, [s.l.], Editora Lâmpada, 2015.
Sinopse: Cabelo até a nuca, despenteado e despojado. Blusa definindo os bíceps, calça jeans sempre nova. Pivô indispensável do time de basquete e um sorriso sedutor... Pelo menos era assim que ele se via e estava disposto a aumentar a sua lista de ficantes. Para isso, prepara uma festa em sua casa convidando todos os alunos do 3º ano de seu colégio com a intenção de ter uma chance com Larissa, a popular.
Resenha: Divertido e romântico, Namorados por Coincidência desperta a curiosidade logo nos primeiros capítulos. O tom leve com o qual é contado, junto às várias situações enfrentadas pelos personagens principais, torna a leitura agradável e rápida. Taty Lima tem uma escrita que flui e não te deixa despregar os olhos das páginas, querendo saber mais e mais da história.
O livro tem início com Leonardo, um garoto tipicamente popular que deseja se tornar ainda mais popular dando festas e “pegando” as garotas mais bonitas do colégio. Com os pais viajando, ele aproveita para fazer ambos de uma vez só, mas é surpreendido por Lilian Machado, a garota mais impopular e humilhada do colégio, em seu quarto. A garota, triste, havia se escondido de todos na festa no único cômodo que achou e, Leonardo, penalizado, deixou que ela ali ficasse.
A noite passa e, em dado momento, Lilian se vê bêbada no quarto, já passando mal. Leonardo a encontra e a ajuda a se deitar, tirando a roupa suja de vômito e dando uma de suas camisas. Esse é o exato momento que ambos são flagrados pelos amigos do rapaz. Apesar de ter medo de ser zoado, o que se desenrola é totalmente o oposto: todos os garotos começam a babar ao saber que Lilian Machado, vulgo Lili Machona, possuía um belo corpo.
Vendo, então, o início do que poderia ser uma “brincadeira perigosa” ao escutar seus amigos pedindo para tirar uma “casquinha”, Leonardo assume sua pose de protetor e afirma que ele e Lilian estão juntos. É o início para uma série de altos e baixos na vida de ambos ao tentar lidar com a família, amigos, ex-namorados, assédios e outros problemas da vida adolescente e adulta.
De início, pode-se pensar que o tema é clichê: namoro falso, o popular e a excluída, etc. No entanto, quando você chega ao meio da história, surpreende-se com os caminhos que ela segue. Mesmo o tom sendo muito jovial e leve, o livro tem uma qualidade que me deixou muito satisfeita: o seu teor filosófico que nos leva a definir o que é caráter. É um estilo de assunto pouco abordado nos livros de romance e que me fez sorrir com alegria ao ver sendo introduzido nessa nova literatura.
Para além, senti falta da exploração de alguns núcleos secundários e terciários, bem como de uma melhor apresentação dos personagens que estão profundamente envolvidos com Leonardo e Lilian. Há um tom um tanto quanto utópico em algumas situações que pode vir a incomodar alguns leitores, mas o objetivo da história acaba sobrepondo esses lapsos.
Recomendo esse livro por diversos motivos. Entre eles estão: a exaltação à nossa cultura literária contemporânea que vem surgindo com cada vez mais força; o teor filosófico que me surpreendeu e tornou a minha leitura mais feliz; a escrita suave e espirituosa que aproxima o leitor da história; e a abordagem de muitos temas cotidianos da vida de um jovem. É uma leitura que vale a pena.

Sara Aguiar (Reepol)
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Entrevista: Taty Lima

terça-feira, 6 de outubro de 2015


Taty Lima nasceu em 16/02/1993 em Almenara – MG. Cresceu na Bahia e vivia uma vida quase cigana sempre se mudando entre três cidades. Aos 13 ou 14 anos descobriu o universo das Web Novelas através de um fórum espanhol, onde escritores virtuais da América Latina se concentravam e produziam suas “novelas” para um público bastante diversificado. Certo dia, com a intenção de conhecer mais sobre aquele mundo novo, descobriu um espaço para isso no Orkut, até o momento, a melhor e mais famosa rede social no Brasil. Lá ela fez amigos fakes, iniciou sua carreira como web noveleira e não largou mais.
Perfil no Nyah: https://fanfiction.com.br/u/359801/

Liga dos Betas (LB): Olá, Taty, e obrigada por teres aceitado esta entrevista para o blog da Liga. Como alguns já devem saber, além de escritora e leitora, és também blogger, mantendo o Manias de Escritor, onde além de resenhas se procura também fornecer artigos úteis para a generalidade dos escritores. Como é manter um equilíbrio entre estas facetas? Há influências de umas para outras?

Taty Lima (TL): Eu que agradeço o espaço e a atenção. Sim, o Manias de Escritores é um site voltado para escritores e leitores e tem sido um desafio equilibrá-lo com minha vida profissional e pessoal. Para manter tudo em ordem, hoje ele possui, aproximadamente, oito redatores esforçados e muito presentes que me ajudam bastante, então o equilíbrio está aqui, no trabalho em equipe. Influencia muito pelo fato de que eu acabo aprendendo muito quando estou pesquisando para o conteúdo do Manias e descubro que nem tudo o que eu achava era daquele jeito. Além do fato de eu levar minhas experiências para o próprio site.

LB: O teu livro Namorados por Coincidência foi publicado pela Editora Lâmpada, e a revisão foi consideravelmente mais longa que a escrita, correcto? Como decorreu o processo de publicação? Há muitas diferenças em relação à escrita e revisão de fanfics? E em relação ao feedback?

TL: Correto. Se formos levar em consideração a minha revisão e a da editora, levou o dobro de tempo. Mas é válido lembrar que eu o escrevi em vinte e oito dias em um frenesi de inspiração, então havia muito o que corrigir. Geralmente a revisão leva, em média, dois meses se focarmos só nela. O processo de publicação foi bem simples até. A editora cuidou do ISBN, capa, diagramação e auxiliou na revisão. Estavam sempre dispostos a responder minhas dúvidas e tudo o mais. Mas demorou um pouco devido à troca de gráfica.
Sim, há diferenças muito grandes. Quando você está revisando sua fic, você revisa capítulo por capítulo e seu foco acaba sendo apenas para aquele capítulo. Mas quando se está somente escrevendo, tudo tem que ser levado em consideração, mesmo se estiver na metade da história. Não que na fanfic não seja assim, mas seus leitores estão ali para te lembrar onde ficou sem nexo, no processo de escrita do livro é você e você somente. O feedback é bem assustador para quem está acostumado com o mundo das fics. Você só sabe o que as pessoas pensam se elas resolverem resenhar o livro ou se elas te procurarem e falar. A maioria não fala o que achou, não estão acostumadas a falar de um livro diretamente com o autor.

LB: Como foi o começo de tudo isso? Qual foi a primeira coisa que te lembras de ter escrito, e qual a primeira que publicaste no Nyah!? Com certeza a sensação de então e de agora mudou um pouco, não?

TL: Eu comecei no finado orkut lá para 2008, comecei novinha, até, rsrsrsrs. Então sim, a mentalidade mudou muito de lá para cá e, consequentemente, as sensações também. Eu comecei levando já um tapa na cara, não tinha o hábito de ler e escrevia muito errado. Então as primeiras críticas que recebi foram duas destrutivas que me arrasaram e pensei em parar. Mas minhas leitoras não permitiram e finalizei a primeira, a segunda, a terceira... Não sei quantas foram até agora. A primeira coisa que escrevi foi um texto pequeno em espanhol (muito ruim, por sinal) e nunca terminei. Devo ter ele guardado em algum lugar por aí... Escrevi em espanhol por ser fã do RBD, e era estourado na época, eu queria aprender espanhol, rsrsrsrs. No Nyah! eu comecei em 2013, criei a conta somente para ler, mas acabei postando Segredos de um Namoro Fajuto. Não está mais lá. A sensação de postar algo hoje é muito mais tranquila e "seja o que Deus quiser" do que quando postei em 2008. Naquela época era "será que vai dar certo? Estou com tanto medo!"

LB: O teu processo criativo tem-se mantido desde então? Pertences ao grupo que prefere planear primeiro, ao que vai planeando conforme escreve ou mesmo a ambos?

TL: Meu processo criativo me leva pela mão e tem sido assim desde sempre, rsrsrsrs. Sou do tipo que só planeja a essência, a ideia eu vou escrevendo. Fico quase como uma leitora descobrindo o que vai acontecer só na hora de escrever.

LB: A primeira edição de Namorados por Coincidência já se encontra esgotada, e além duma segunda edição, já estás a preparar um novo livro, que será lançado em ebook, correcto? A que atribuis essa rapidez de vendas?

TL: Acho que as pessoas gostam de ler livros com temáticas atuais. Namorados por Coincidência é um livro abordado nos dias atuais e é mais dia a dia. Talvez, não tenho certeza, talvez seja este um dos motivos. Mas ele é o tipo de livro divisa águas: ou você gosta ou você não gosta. Já vi uma pessoa dizer que detestou, já vi outras pessoas dizerem que adoraram e leriam qualquer outra história minha sem nem pensar no assunto. Talvez este também seja um fator, quem sabe?

LB: Podes ainda falar-nos um pouco desse próximo livro?

TL: Inicialmente chamado de Segredos de um Namoro Fajuto (pensando em mudar por ser muito longo), conta a história de um rapaz de vinte e quatro anos que cursa Desenho. Tudo na vida dele dá errado e as pessoas adoram rir disso. Algumas chegam a passar a perna nele. Um dia ele chega em casa e descobre sua namorada transando com seu melhor amigo, e isso é a gota d'água para ele resolver mudar. E é aqui que nossa personagem entra, como sua namorada falsa, mesmo sem ela saber disso. O livro é quase 100% narrado pelo personagem principal e como é comédia, flui bem fácil.

LB: Sabemos já que Namorados por Coincidência passou por um longo processo de revisão: como funciona esse processo? Preferes fazer tudo sozinha, ou usufruis da ajuda de revisores ou beta readers?

TL: A primeira revisão foi quase inteiramente por mim, a editora não cobriu isso. Mas é importante você ter outra pessoa revisando, pois pode haver erros que seus olhos cansados não verão. É por isso que nesta segunda edição e nos próximos livros o cuidado será muito maior.
Beta é sempre bom.

LB: E enquanto leitora de fanfics? Porquê ler fanfics? Que principais diferenças encontras entre a leitura de livros e a leitura de fanfics?

TL: Leio por gostar de como os fãs apresentam aquele mesmo mundo que conheço, mas de formas diferentes. E também para saciar o desejo de ver meu ship, mesmo que só em fanfic, rsrsrsrs.
A principal diferença é a estrutura. Nos livros você não só sabe, como sente a linha tênue em que foi construída. Nas fanfics pode haver lapsos ou buracos bem profundos no enredo.

LB: Tens alguma história que te tenha influenciado ou seja particularmente querida?

TL: Quando escrevo drama, acabo pegando um pouco da influência de O Fantasma da Ópera, mas não sei o motivo, não é exatamente o meu livro favorito. Para comédias só escrevo aquilo que gosto de ler mesmo. Minha história favorita é um livro chamado A Sangue Frio.

LB: Por fim: qual o teu conselho para escritores que querem tornar as suas histórias em livros físicos?

TL: Que estejam preparados para todo tipo de situação. Você não vai vender muito logo de cara, vai levar um tempo, sim, e precisa aprender a ter paciência. Tem gente que larga o emprego por causa disso, não faça isso. Invista em publicidade, logo, vai precisar ter dinheiro mesmo que se publique por uma editora que não pediu investimento algum.

LB: Mais uma vez, muito obrigada pelo tempo despendido e pela disponibilidade.
A resenha de Namorados por Coincidência será publicada no blog da Liga na próxima Quinta-feira.
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