Cometa Erros Interessantes

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Por: Hairo-Rodrigo

“Como que se faz para escrever bem?"

Eu sempre gostei de saber o que os escritores profissionais faziam para escrever. De que modo eles trabalhavam. Qual o caminho que eles escolheram para isso. Talvez porque um dia eu queira me tornar um escritor profissional também, mas há aquela parte de mim que simplesmente faz aquela pergunta: “O que faz o trabalho deles tão diferente do meu?”.

Mas sempre que eu procuro saber o que um escritor profissional tem de tão especial, eu encontro a mesma resposta: ele escreve.

Nossa, mas que raiva que isso me dá... Eu sei que ele escreve, oras. Eu sei que o que ele faz é escrever, afinal, o cara é um escritor! Eu quero saber como ele escreve. O que ele faz para escrever, e ninguém nunca entende isso. Todos eles sempre têm a mesma resposta: “Simplesmente escreva”.

Até que outro dia, sentado em um bar, conversando sobre uma ideia de história com uns amigos que nunca escreveram nada, eles me fizeram exatamente a pergunta que eu sempre fiz aos outros: “Como você escreve isso, cara?”.

Aquilo era uma conversa inocente de bar, em meio a copos e aperitivos, e eu não estava pensando muito. Estava relaxado e encarei a pergunta justamente como ela me foi apresentada, sem pretensões e cheio de inocência. Mastiguei um punhado de amendoins enquanto pensava em uma resposta e, quando terminei, não tinha chegado a qualquer conclusão. Respondi então, dando de ombros: “Sei lá, pô... Eu só escrevo”.

A realidade do que eu disse só foi me atingir quando cheguei em casa e relembrei o bate-papo. A primeira reação foi a de me sentir estúpido por ter feito exatamente o que eu sempre reclamei que faziam. A segunda foi até falta de modéstia, pois não me contive em pensar: “Será que eu estou me tornando um daqueles autores para quem eu sempre quis fazer aquela pergunta?”. Fez bem para o ego, admito, mas passou.

Por último, porém, veio um misto de aceitação e compreensão. Não é que a resposta que eu sempre odiei seja insuficiente. Eu apenas nunca a entendi direito. Ela podia não ser aquilo que eu queria ouvir, mas isso não faz dela menos verdadeira. Entendem?

Com isso em mente, trago para vocês um cara muito bem-sucedido, daqueles para quem eu sempre quis perguntar o que ele fez para chegar onde está e que, mais do que ser um escritor profissional, faz exatamente o que eu disse: ele escreve.

Seja na série de quadrinhos “Sandman”, nos scripts de “A Lenda de Beowulf” ou nas páginas de “Stardust” (esse mesmo, que virou filme há alguns anos), Neil Gaiman está sempre escrevendo. Mais do que autor, roteirista ou cartunista, ele é um escritor, no sentido mais amplo da palavra. O que ele sempre quis fazer era escrever, por tanto, ele escrevia. E escreve muito.

Aqui estão as respostas dele para aquela minha pergunta lá do início e, no fim, o vídeo de um discurso espetacular que ele fez na formatura da Faculdade das Artes, em 2007, na Filadélfia. O discurso ficou tão legal que, posteriormente, foi transcrito e vendido na forma de livro, intitulado “Make Good Art”. Talvez ele, com um pouco mais de propriedade, seja mais capaz de ajudar vocês a entenderem aquela resposta do que eu. Cada palavra vale a pena. Aproveitem. 

As regras para escrever de Neil Gaiman:

1 – Escreva;
2 – Bote uma palavra após a outra. Escolha a palavra certa e escreva;
3 – Termine o que você estiver escrevendo. O que quer que você precise fazer para terminar, termine;
4 – Coloque o livro de lado. Leia como se você nunca tivesse lido antes. Mostre a amigos que tenham uma opinião que você respeite e que gostem do tipo de história que você escreveu;
5 – Lembre-se: Quando as pessoas dizem que tem alguma coisa errada ou que alguma coisa não funcionou para elas, elas quase sempre têm razão. Quando elas te dizem exatamente o que está errado e como consertar, elas quase sempre estão erradas;
6 – Conserte. Lembre-se de que cedo ou tarde, antes que aquilo atinja a perfeição, você vai ter que deixar aquilo de lado e começar a escrever a próxima coisa. Alcançar a perfeição é como alcançar o horizonte. Siga em frente;
7 – Ria das suas próprias piadas;
8 – A principal regra sobre a escrita é que, se você fizer isso com segurança e confiança o suficiente, você pode fazer o que você quiser (isso pode ser uma regra para a vida também, mas definitivamente é verdade para a escrita). Então escreva sua história como ela precisa ser escrita. Escreva honestamente e conte-a da melhor maneira que você puder. Não tenho certeza se existem outras regras. Pelo menos não regras que importem... ”.


O vídeo:
Caso as legendas não apareçam de primeira, basta ativá-las na barra de controle do vídeo, ao lado da engrenagem das configurações, próxima à opção de colocar em tela cheia.

Fontes:
GAIMAN, Neil; “Neil Gaiman’s Rule for Writers; Publicado em 22 de fevereiro de 2010, disponível em: http://www.theguardian.com/books/2010/feb/22/roddy-doyle-rules-for-writers

3 comentários:

  1. Isso foi simplesmente incrível! Eu não estou sozinha com esse tipo de pensamento! Valeu!

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