A Biografia das Personagens

terça-feira, 27 de maio de 2014

Por: Duki

Como dito em outra postagem do blog, personagens são um dos elementos mais importantes da história. Por esse motivo devemos sempre manter uma personagem bem construída e que seja lembrada por nossos leitores. Para isso, a personagem precisa ter sentido na historia, não apenas aparecer. É ai que a biografia entra. 
Biografia é a escrita da vida, ou seja, tudo que aconteceu e acontece com a personagem. No caso de história, é algo que também acontecerá. Ou seja, biografia é tudo sobre sua personagem, desde o nascimento até a morte. 

Mas como isso muda a história?

Simples. Tendo a biografia completa da sua personagem, é mais fácil contar a história, pois mesmo que você não queira, o passado irá influenciar o presente e o presente o futuro, afinal, uma coisa puxa a outra. Vejamos, por exemplo, a biografia do personagem Harry Potter. 

[Spoilers Harry Potter] 

Harry é um menino que perdeu os pais. Viveu onze anos com os tios e o primo, mas era tratado com desprezo. Aos onze anos recebe a carta de Hogwarts, a escola de magia. Embarca então em uma aventura, descobre que é bruxo, faz amizades e descobre coisas de seu passado. Passa por lutas, provações e sucessivos acontecimentos até seu final. 

Ou seja, o fato de Harry ser um bruxo "puxa" os acontecimentos seguintes. 

Biografia é, portanto, a história completa da personagem. Ela ajuda o escritor a conduzir seu personagem ao futuro e à ações pré-determinadas por sua biografia. Ajuda a conectar as ações e eventos, e saber o rumo que a história tomará. Como é o caso de Harry Potter. 

Cada mínimo detalhe que ocorre na história leva ao final descrito. A morte de Dumbledore, por exemplo, foi necessária para que a ascensão de Voldemort e o destino final de Harry fossem realizados. O amor de Snape por Lily Potter, mãe de Harry, também é importante, pois Snape o estava protegendo por este motivo, seu amor por Lily. Ambos os fatos levam a um lugar: o embate entre Voldemort e Harry Potter. Isso tudo faz parte da biografia de Harry. 

É obrigatório estruturar uma biografia para a personagem?

Não, caro colega. Mas veja bem. Com a biografia das personagens você já possui um meio resumo (ou um completo) da sua história. Isso quer dizer que é muito mais difícil se desvirtuar da trama principal e criar personagens sem um mínimo de personalidade, afinal, a vida faz a pessoa. 
Por isso é aconselhável escrever bem a biografia das personagens, ou ao menos a das principais e as que influenciarão o rumo da história. Sendo assim, os personagens ficarão bem lembrados, e a trama instigará mais o leitor. 

Resumo:
  • Biografia é tudo sobre sua personagem. Nascimento, passado, presente e futuro. 
  • Ela ajuda a traçar um determinado caminho para a personagem. 
  • Serve também como meio resumo da história. 
  • Conecta fatos e muitas vezes os explica. 
  • Ajuda a manter o rumo da trama. 
Bibliografia:



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Parágrafos, parágrafos, legumes à parte

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Por: Halina

Quando eu era pequena escrevia tudo sem dar espaço e ninguém entendia nada das minhas histórias, porque era uma letra empilhada à outra. Depois cresci um pouco e aprendi a colocar espaços entre as palavras, mas passei anos intrigada com aqueles espaços maiores nos meios dos textos, que separavam as histórias em “quadrados cheios de letras”. Bom, eu demorei para me acertar com os parágrafos, isso é fato. Mas agora quando eu leio um livro ou uma fanfic, presto atenção no que os parágrafos me dizem e eles quase nunca me decepcionam. Se você ler cada um deles com atenção, vai perceber que eles são indispensáveis para a história como um todo e que, no seu mundinho retangular e limitado, também contam uma história particular. 

Mas ei, eis que na minha caminhada pelo mundo das fanfics encontrei muitos parágrafos largados de qualquer jeito, que não dizem nada com nada e parecem jiló no meio da sopa de tão inúteis. É por isso que estou aqui hoje, para ensinar a construir um parágrafo de modo que ele cumpra sua função no texto com maestria e para diminuir o desprezo que alguns autores parecem sentir por esse aspecto travesso da escrita. Chegaram ao fim os tempos de começar um parágrafo novo aleatoriamente e sair cortando sua história de qualquer jeito como se ela fosse batata! 

Para encontrar harmonia, o escritor deve estudar os elementos da história como se eles fossem instrumentos de uma orquestra — primeiro separadamente, depois em concerto. 

Quem disse a frase acima foi Robert McKee, um dos maiores mestres de Hollywood na arte de escrever roteiros. O que ele disse sobre os elementos de uma história também se aplica aos parágrafos, pois os parágrafos não só são elementos de uma história, mas também representam uma arma poderosa para atingir a alma do seu leitor. Não estou dizendo para vocês escreverem um parágrafo de cada vez sem se importar com a história como um todo. Só porque você vai olhar para eles de modo individual, não quer dizer que eles não devem se ligar uns aos outros. Como os ossos do nosso corpo, cada um tem uma função e um sistema de ossos, como o das mãos, permite que peguemos objetos ou acenemos. E todos os ossos juntos formam uma figura única, a sua ou a minha. Assim são os parágrafos: pense nele como ossos ou como instrumentos, mas saiba que para um corpo ou uma orquestra funcionar corretamente, eles precisam estar exercendo sua função corretamente. 

Enfim, qual é a função do parágrafo?

Como eu disse, ele conta uma história, esta pode ser curta ou longa, pode narrar uma passagem de anos ou um segundo. Assim como a frase “A próxima coisa a fazer era comer os confeitos” conta uma história, o parágrafo: “A próxima coisa a fazer era comer os confeitos; isso causou algum barulho e bagunça, pois os pássaros grandes reclamavam que não podiam saborear os seus e os pequenos engasgavam e tinham que levar palmadas nas costas. Entretanto, afinal todos terminaram e sentaram-se em círculo, pedindo ao Rato para lhes contar alguma coisa.” (Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll) Ele conta outra coisa, muito parecida com a primeira, uma vez que é a consequência dela. O trabalho do autor é reunir em um parágrafo as pequenas histórias das frases de modo que elas se juntem em uma outra história, mais ampla. No primeiro caso, da frase, a história era sobre como chegara a hora de comer os confeitos. No segundo, do parágrafo, a história era o processo de comer esses confeitos e o comportamento das personagens em relação a ele. Assim, podemos dizer que cada parágrafo deve cumprir um objetivo, passar uma mensagem que diz respeito somente a ele e, por isso, reunir as frases necessárias. Às vezes essa mensagem é simples e o escritor quer que ela seja percebida de tal maneira, sem enrolações, é o caso de parágrafos curtos que narram um único movimento ou pensamento (e que geralmente fazem um tan tan tan TAN soar na cabeça do leitor depois de lido). Um exemplo, também de Alice no País das Maravilhas, é: “Vejam só, tantas coisas estranhas tinham acontecido ultimamente que Alice começara a pensar que muito poucas coisas eram na verdade realmente impossíveis”. Nesse caso, o autor queria destacar apenas aquela frase e juntar outras a ela, num parágrafo maior, faria com que a atenção do leitor se dispersasse quando deveria se focar na mensagem que aquela única frase estava passando. 

Então o tamanho do parágrafo não importa? Claro que importa! 

Pois eu acabei de deixar o parágrafo anterior pequeno porque queria que você prestasse atenção naquele único fato: o tamanho do parágrafo importa. Enquanto que agora vou precisar de um parágrafo maior para passar uma mensagem diferente: por que o tamanho importa? O tamanho importa por causa do ritmo, porque é através do tamanho dos parágrafos, assim como da pontuação, que o autor dita o ritmo da leitura de sua história, separando quais eventos devem ser narrados e lidos juntos e quais devem ser separados uns dos outros. Lembra-se do que eu disse sobre meu problema com os espaços quando eu era criança? Pois bem, não é muito diferente no que diz respeito aos parágrafos. Tanto eles quanto os espaços ditam o ritmo de uma narrativa, são instrumentos de uma orquestra da qual o escritor é o maestro. 

Quando eu escrevo tudo m u i t o s e p a r a d o, a leitura fica pausada e é difícil para o leitor perceber o que eu quero dizer no fim das contas, pois lhe foram dadas informações picadas e que, sozinhas, não dizem muita coisa. Já quando euescrevotudojuntoeapertadosemdartempopararespirar, a leitura fica rápida e atropelada, e o leitor se perde no meio dela, confuso entre os detalhes nos quais não prestou muita atenção, porque não lhes foi dada a ênfase necessária. Do mesmo modo, se eu escrevo uma história apenas com pequenos parágrafos, a leitura fica cheia de pausas, lenta e com muitas informações jogadas de qualquer jeito. E quando eu escrevo parágrafos grandes demais, em algum momento o leitor vai se perder e as informações vão deixando de atingi-lo com o impacto desejado, pois uma informação vai ofuscar a importância da outra. 

Você pode, sim, escrever um parágrafo gigantesco se quiser (e precisar). Para ponderar sobre o tamanho do parágrafo, vale a regra da associação entre ideias que se ligam para passar uma mensagem específica. O importante é que quando você ler um parágrafo, você possa perceber qual foi o objetivo dele e se o mesmo foi alcançado como deveria. Naturalmente, o tamanho do parágrafo vai variar se o objetivo é fornecer ao leitor uma visão completa de uma paisagem ou fazer com que ele grave uma única frase de efeito. 

Então três passos importantes para a construção de um parágrafo:

1) Ter em mente exatamente o que ele deve dizer;
2) Utilizar frases e ideias que se ligam para passar essa mensagem, mas que também possuam uma função individual;
3) Ao fim do parágrafo, deixar abertura para o início de outro. 

É claro que com o tempo, construir um parágrafo se torna tão automático quanto tocar um violino é para um violinista. Mas mesmo os autores acostumados a escrever devem revisar a própria história, prestando atenção nos parágrafos, porque todos correm o risco de escrever um parágrafo inútil, incompleto ou sem a estrutura adequada. E uma vez que se tem em mente que cada parágrafo deve contar sua história, se você escrever um parágrafo por dia vai adicionar história à sua história. Uma boa alternativa para aqueles presos entre as garras da falta de inspiração é escrever um parágrafo por dia, esforçando-se ao máximo para que ele seja decente. De parágrafo em parágrafo, surgem livros e séries. No entanto, sem os parágrafos não há nada. 
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[Sugestão atendida] Como escrever cenas de estupro

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Por: Carol Guimarães

Hello, hello, hello!
Há algum tempo eu vi no Ask da Liga alguém pedindo dicas de como escrever cenas de estupro, um assunto delicado, que pode acabar mudando toda a personalidade do seu personagem e o rumo da sua história. Resolvi atender ao pedido, visto que eu mesma fiquei com essa dúvida ao elaborar uma história.
A resposta? Depende. Depende de quem é o narrador, depende do tipo de história que você está escrevendo, depende de qual impressão você quer passar ao leitor. Eu não posso simplesmente lhe passar uma fórmula mágica, pois ela não existe. Cenas de estupro são variáveis, pois os personagens são variáveis. 
O fato é que estupro é um tabu e pouco se fala sobre o assunto. Entretanto, eu vou colocar algumas situações aqui para tentar ajudar você, autor, da melhor maneira possível, a retratar uma situação dessas. 
Mas antes de tudo, vamos esclarecer uma coisa:

Estupro - Ato de forçar alguém a ter relações sexuais contra a sua vontade, por meio de violência ou ameaça. = VIOLAÇÃO
("estupro", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/estupro [consultado em 05-05-2014].)

Estrupo - Ruído, tropel, tumulto.
("estrupo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/estrupo [consultado em 05-05-2014].)

As duas palavras existem e são fáceis de confundir, mas agora você já sabe e não vai mais errar. Certo? Ok. A partir de agora eu não quero mais ninguém escrevendo que a personagem foi “estrupada”.
Depois de claro que o correto é estupro, não estrupo, que tal alguns dados? Aproveitando a pesquisa do Ipea recentemente e todo o bafafá que rolou por conta dela, vamos tentar desmistificar algumas coisas.
  • Estima-se que, no Brasil, no mínimo 527 mil casos de estupro são consumados a cada ano. E dentre esses, apenas dez por cento são reportados à polícia.

Mas por que apenas dez por cento? Você me pergunta, abismado com um número tão baixo. Ora, se grande parte da população acredita que a vítima é culpada por ser vulgar, quem é que irá querer contar para alguém e ser ainda mais humilhado?
  • Em relação ao total das notificações ocorridas em 2011, 88.5% das vítimas eram do sexo feminino, mais da metade tinha menos de 13 anos de idade.

Reparem que esses dados são apenas dos casos relatados à polícia. Homens talvez tenham ainda mais dificuldade para mencionar esse tipo de coisa, afinal, criou-se na sociedade atual uma ideia de que apenas mulheres são estupradas, homens são homossexuais e não querem admitir, preferindo inventar uma história de estupro, ou então que eles são homens e todo homem gosta de sexo, e que a ideia de eles negarem isso a uma mulher é ridícula. Claro que não, né? E homossexuais ou não, homem ou mulher, jovem ou adulto, todos têm o direito de procurar a justiça e atendimento psicológico.
Outra coisa, meninas com menos de treze anos costumam se vestir vulgarmente? A grande maioria não, certo? Então é cabível dizer que a vítima pediu para ser estuprada usando roupas inapropriadas?
  • No geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares.

A fulana coloca uma roupa curta para ir a uma festa e depois de um pouquinho embriagada, decide ir para casa, passando por um beco escuro e sujo. Um sujeito mal encarado, feio, fedorento e com uma faca na mão, aparece e a estupra. Previsível? Clichê?
A Beltrana tem um tio lindo, cheiroso, que parece um príncipe aos olhos de todos, até mesmo dela. Até que esse tio a estupra e continua o fazendo até que ela se rebele. Por mais que pareça doentio, esse tio ainda a trata com carinho, porque ele a ama. 
Qual dos dois casos nós vemos mais nas histórias? Um biscoito para quem disse o primeiro. Agora, qual dos dois casos acontece mais no mundo real? Um biscoito de chocolate com sorvete e petit gâteau para quem respondeu o segundo. Por incrível que pareça, o último caso é o mais comum de ocorrer. Tente surpreender o leitor, evite o beco escuro e o cara feio com a faca na mão.
Se você quiser mais dados como esses, no final do post há um link com as estatísticas do Ipea. É interessante dar uma olhada, pois grande parte dos resultados vai contra o senso comum.
Valendo lembrar também que, antes de 2009, estupro era categorizado apenas como um homem inserindo o pênis na vagina da vítima sem o seu consentimento, ou seja, todos os outros casos de violência sexual eram chamados de outra maneira e tinham outras penas, homens não podiam ser estuprados, mulheres não podiam ser agressoras, pênis inserido no ânus da mulher também não era considerado... Agora, desde 2009, estupro é categorizado como toda forma de violência sexual para qualquer fim libidinoso (finalidade de satisfazer o desejo sexual), incluindo a conjunção carnal (pênis introduzido na vagina). O crime pode ser cometido por qualquer forma e em qualquer delas será considerado crime hediondo, o tipo mais grave de crime.
Por que escrever uma cena de estupro?

Se você quer adicionar mais drama à sua história, ou se quer que seja o motivo do personagem sair em busca de vingança e iniciar a ação, sugiro fortemente que não o faça. Sério, saia desse post e vá procurar algum outro, não escreva a cena de estupro!
Abuso sexual é coisa séria. Pode mudar a personalidade do personagem inteira e até o rumo de sua história. Na verdade, muito provavelmente será o clímax.
O que você tem que entender é que estupro é um ato tão impactante que pode destruir a vida de uma pessoa, ela nunca mais será a mesma. Ela pode se recuperar? Pode, claro que sim. Há vários grupos de apoio que ajudam a vítima a se recuperar a ponto de ela viver uma vida saudável, feliz e normal. Mas ela nunca poderá dizer que é a mesma pessoa que costumava ser antes do abuso. E você terá que desenvolver essa mudança.
O personagem deverá passar por fases. Choque, negação, culpa — sim, algumas vítimas se culpam, por mais que não seja culpa delas ―, pensar, diversas vezes, no que elas poderiam ter feito para evitar — e aceitação, não necessariamente nessa ordem. Lembrando que isso varia de acordo com a idade, sexo e situação da personagem. Isso dá trabalho, e você não pode simplesmente ignorar e seguir a história como se nada tivesse mudado.
Além disso, a vítima, salvo algumas exceções, não gostará do abuso, nem irá agradecer o algoz pelo que ele fez com ela. A pessoa sentirá dor, vai odiar e temer o estuprador. A vítima pode até gozar, por fatores biológicos, mas muito provavelmente sentirá ainda mais nojo de si mesma por ter tido tal reação.
Mas não existem exceções, Carol? 
Sim, existem. Mas saiba que são raras e você teria que trabalhar com um lado psicológico totalmente diferente. O cérebro humano tenta encontrar a melhor maneira de se defender diante de um choque desse tipo, e pode acabar criando a ilusão de afeto entre a vítima e o agressor. No entanto, lembre-se de que isso não é muito comum de acontecer e, se quiser escrever algo assim, saiba com o que está lidando e faça pesquisas.
Resumindo, só escreva sobre estupro se for realmente a sua intenção falar sobre o assunto, não para tapar buracos ou deixar as coisas mais emocionantes, ou para o seu vilão parecer mais cruel. Isso é um erro!
Mas agora que decidiu que quer mesmo escrever sobre o tema, que vai se dedicar no desenvolvimento do personagem a partir do clímax, você deve se perguntar: o que eu quero passar para o leitor? Eu quero que ele fique enojado com o ato vil? Eu quero que ele sinta o sofrimento da vítima? Eu quero que ele fique indignado com o autor do crime?
E ainda: qual o narrador da cena? A vítima ou o agressor? Talvez um narrador observador?
Essas perguntas são importantes, porque dependendo das suas respostas, a sua cena mudará.
Uma cena de estupro é caracterizada, principalmente, pelo seu teor dramático. Por isso eu aconselho que foque mais nos sentimentos dos personagens durante o ato, do que o próprio ato em si, até porque não costuma ser cheio de sangue ou com muita ação como seria o caso de um assassinato, por exemplo.
A beta estudante de psicologia, Senhorita Nada, e a beta formada em direito, Tina, gentilmente me ajudaram a entender o que ocorre na mente das pessoas nessas situações. Nos três casos seguintes você terá de usar a psicologia a seu favor. Dê as mãos a ela e não largue mais. Ela será sua amiga pelo resto de sua vida ou, pelo menos, até terminar de escrever. 

A vítima
As vítimas, de modo geral, costumam demonstrar uma reação padrão. Elas se fecham a qualquer aproximação, não socializam, choram muito, acabam criando medos excessivos, ou se tornam pessoas mais agressivas, podem até começar a andar com acessórios para se defender, sprays de pimenta, facas, pistolas...
Se o seu narrador for a vítima, você terá que mostrar essas características no texto. Pergunte-se o que seu personagem faria se tivesse que andar sozinho pela cidade à noite, e depois que ele sofresse o abuso, como reagiria? Como se comportava, e como passa a se comportar com pessoas do mesmo sexo do agressor?
Durante o ato, procure focar no sofrimento e na humilhação que a vítima sente, também na raiva e frustração por tentar escapar e não conseguir. Talvez seu personagem fique em choque e apenas ore para que termine logo, ou até mesmo para que ele morra. Como eu disse anteriormente, pegue o seu amigo psicólogo, grude a traseira dele na cadeira ao seu lado e só o deixe sair depois que ele te ajudar a ver como o seu personagem reagiria em uma situação dessas.

O agressor
Se quem estiver contando a história for o agressor, a jornada será mais árdua do que se fosse a vítima, mas não menos interessante. Talvez até um pouquinho mais original.
Como as estatísticas mostraram, normalmente os criminosos são próximos da vítima, apresentam-se como amigos, frequentam os mesmos locais, são sujeitos que aparentemente têm uma boa relação com toda a família, tudo numa tentativa de liberar os seus ímpetos sexuais, algumas vezes de modo tão cruel que o crime acaba em morte. O que se pode ter ideia, devido a várias pesquisas e depoimentos, é que eles, os estupradores, demonstram ser pessoas tranquilas, calmas na frente de parentes, amigos, mas que no fundo, apenas estão calculando o momento ideal de praticar o ato do estupro (ou o ato libidinoso). 
Porém, alguns desses estupradores já vêm com problemas psiquiátricos, têm transtornos compulsivos, psicopatias, enfim, quando o objeto do desejo é inalcançável, o estupro consequentemente se torna mais agressivo, e a tendência é matar a vítima. O desejo carnal de manter ato é quase que animal, irracional, transcende a questão saudável do sexo.
Durante o ato, foque na sensação de prazer que o estuprador sente, na euforia por ter finalmente conseguido realizar o que tanto desejava, talvez até na afeição que ele sente pela vítima, pois apesar de doentio, não é incomum de acontecer. 

Narrador observador
Lembre-se de que o estupro é um ato de dominação, a fim de humilhar a vítima e minar sua moral. O abuso sexual é antigo e faz parte da história como, por exemplo, na Roma Antiga, onde a pederastia era comum. Era normal e tolerado que um jovem rapaz, ainda não considerado cidadão, que quisesse estudar, fosse abusado pelo mestre pedagogo, pois mostrava a relação de submissão que o jovem deveria ter com seu professor. É muito comum também, em tempos de Guerra, que os exércitos pratiquem o ato no inimigo, de forma a subjugá-lo, como aconteceu muito durante a Segunda Guerra Mundial, nos conflitos de vikings e na guerra de Troia. 
Portanto, se a história for contada em terceira pessoa, tente mostrar os dois lados da moeda: como a vítima se sente e pensa (está em uma posição de submissão, mesmo que não queira), e como o estuprador se sente e pensa (está dominando a vítima). 

Bom, espero ter ajudado e que tenham gostado do post! Se ainda tiver dúvidas, pesquise, peça ajuda a alguém que entenda do assunto, corra atrás e faça dessa cena uma coisa memorável para os seus leitores.
That’s all folks!


CERQUEIRA, Daniel; COELHO, Danilo de Santa Cruz. Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde (versão preliminar). Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/140327_notatecnicadiest11.pdf>. Acesso em: 05 de maio de 2014.
HINES, Jim C. Writing about rape. Disponível em: <http://www.apex-magazine.com/writing-about-rape/>. Acesso em: 05 de maio de 2014.
Estupro. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Estupro. Acesso em: 05 de maio de 2014.
Sexualidade na Roma Antiga. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sexualidade_na_Roma_Antiga>. Acesso em: 05 de maio de 2014.
Pederastia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Pederastia>. Acesso em: 05 de maio de 2014.
Estupros de Guerra. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Estupros_de_guerra>. Acesso em: 05 de maio de 2014.
Homem pode ser vítima de estupro. Disponível em: <http://endireitado.wordpress.com/2009/09/11/homem-pode-ser-vitima-de-estupro/>. Acesso em: 05 de maio de 2014.


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Apresentando as tuas personagens

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Por: Deathless Nokas

Mas o que é isso? Mais um post sobre persongens?!

Bem, caro leitor, as personagens são alguns dos elementos mais importantes da tua história, logo a seguir ao enredo. É através delas que tu contas a tua história e é com elas que o teu leitor se identificará e que quererá acompanhar ao longo de todos os teus capítulos, esperando que chegue o final e que tudo lhes corra bem (ou mal, se elas forem os vilões).

Portanto, apesar de o enredo ser a coisa mais importante da tua história, apesar de o enredo ser quase A TUA HISTÓRIA MESMO, as personagens são aquilo que vai fazer com que os teus leitores queiram saber o que acontece a seguir. Porque os leitores vão querer saber o que vai acontecer... às tuas personagens. São elas que agarram os teus leitores às tuas palavras. Portanto, “mais um post sobre personagens”, sim, mas um tão necessário quanto todos os outros.

Eu vou focar-me mais em ajudar-te a criar personagens interessantes e credíveis, que façam com que os teus leitores sintam que as conhecem verdadeiramente e se preocupem em ler para descobrirem o que elas vão fazer em seguida.

E agora comecemos, então!

O que faz de uma personagem “interessante”?

Realmente, o que faz com que uma personagem seja interessante ou aborrecida? Uma cor de cabelo bizarra? Muitos piercings? Cicatrizes? 

Claro que um visual diferente pode ser interessante, mas torna-se ainda mais se houver uma explicação para uma aparência única. Se calhar as cicatrizes são de anos de lutas num país distante. Cada piercing pode ser uma prova de uma meta pessoal alcançada…

Mas quem nunca leu um livro ou viu um filme onde vimos uma personagem completamente comum à primeira vista ser muito especial e única? E que conclusão é que podemos retirar daí? É que a aparência não é tudo numa personagem e não é por tu dizeres que a tua tem cabelo verde que já concluíste o trabalho de a apresentares aos teus leitores.

Na verdade, a aparência é a parte menos importante no que toca à introdução de personagens.

Não é por eu te dizer que tenho um metro e oitenta que tu vais saber se eu dou dinheiro aos pedintes quando ando na rua ou não. Mas se eu te dissesse que dou dinheiro a todas as pessoas que me pedem na rua, ou no emprego, ou aos meus amigos quando eles precisam, aí tu já ficarias a saber duas coisas, mais ou menos: que eu sou generosa e, talvez, que eu tenho até bastante dinheiro para poder andar a distribuí-lo por aí.

Percebeste a diferença entre as duas situações? Na primeira eu fiz uma descrição física minha e aí tu tiveste uma imagem visual da minha pessoa (ou não. Porque só te dei um dado a meu respeito). Nada mais. Na segunda ocasião, eu descrevi uma ação (e só uma, tal como há bocado te dei também só uma descrição). Eu disse que dava dinheiro às pessoas quando elas mo pediam, e tu, quase de certeza, que viste uma pessoa a dar dinheiro aos outros nesse momento. Se calhar viste-a dizer uma ou duas palavras simpáticas também, apesar de não a teres ouvido a dizer nada. Se calhar viste-a sorrir enquanto abria a carteira e abanava a cabeça negativamente e recusava os “obrigados!” entusiasmados das outras pessoas. Ou talvez não tenhas visto nada disto e tenhas visto uma imagem diferente. Mas aposto que viste alguma coisa. E a verdade é que eu nem tenho um metro e oitenta e nem tenho assim tanto dinheiro para dar a toda a gente a toda a hora, apesar de ajudar os outros quando posso.

No entanto, ficaste a achar que me conhecias um bocadinho por eu te dizer que dava dinheiro aos outros. E por quê? Porque a melhor forma de apresentares as tuas personagens aos teus leitores é mostrando-as em ação. Em vez de dizeres que a tua personagem principal é muito generosa, fá-la dar dinheiro a um pedinte e a um amigo em apuros, apesar de ela mesma não ter muito dinheiro, para começar. Em vez de dizeres que ela tem um metro e oitenta, fá-la bater com a cabeça num teto baixo de uma loja. Uma loja de animais onde ela vá doar comida todos os sábados – e tens aí mais uma ocasião em que mostras que ela é muito dedicada a ajudar os outros.

Percebes o que estou a tentar explicar?

Quando fores apresentar as tuas personagens, não digas que elas são “assim, assado e cozido”. Não apresentes uma lista de adjetivos aos teus leitores. Limita-te a contar a tua história e a inserir aqui e ali episódios pequeninos, minúsculas cenas com duas linhas no máximo, em que mostres como as tuas personagens são.

Se és uma pessoa curiosa e que investiga a respeito de como melhorar enquanto escritor, já deves ter ouvido muitas vezes o velho conselho “Show! Don’t tell!”. Isso quer dizer “Mostra! Não contes!” e é, talvez, das melhores dicas que podes incorporar na tua escrita.

Não “contes” que o teu protagonista é temperamental. Mostra-o a ficar irritado com um caixote do lixo fora do caminho e fá-lo dar-lhe um pontapé. Fá-lo andar de costas curvadas e de mãos nos bolsos, irritado, de sobrancelhas franzidas na maior parte do tempo. E não digas que ele tem momentos em que está menos zangado. Fá-lo, um dia, estar numa aula a olhar pela janela, observando um casal de gatos brincalhões, e um colega ficar chocado ao reparar que ele está a sorrir.

Então, uma personagem interessante é uma personagem que age?

No fundo, sim, caro leitor. Uma personagem interessante é uma personagem que se apresenta sozinha e através dos seus atos. É uma personagem que está sempre a fazer coisas, em vez de ficar quieta durante dez minutos, enquanto o narrador (que pode mesmo ser ele próprio) se ocupa a descrevê-lo com adjetivos e com roupas.

E a melhor forma de a apresentares é usares o teu enredo. Mistura as duas coisas. Pela forma como a tua personagem lida com os problemas ou com as coisas boas que lhe vão acontecendo, o teu leitor também a vai conhecendo melhor: se ela é uma desistente ou uma lutadora, se ela celebra comendo ou bebendo, se ela adora cozinhar para os amigos em ocasiões especiais ou todos os dias, se ela adora estar com os amigos ou se passa a maior parte da história sozinha e tem poucas pessoas com que contar…

Usa a tua história para pores a tua personagem a mexer-se, a tomar decisões e a agir. E de certeza que os teus leitores vão achar que ela é super interessante e vão morrer de curiosidade até que escrevas o próximo capítulo!

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